4 de set de 2006

MADE IN BRAZIL

Conheço todas as ruas por onde passo, poderia percorrer algumas de olhos fechados. Os cheiros e mal cheiros, o clima, a brisa, a luz incomparável que dá vida a tudo ao redor . A cor do mar que se insinua entre dois enormes prédios que posso ver através da janela. O sotaque nordestino, as expressões irreverentes que saem fácil e me roubam um sorriso . A comida farta, o sabor apurado, as frutas que muita gente do lado de lá nem faz idéia que existem. Tudo tão familiar, tão parte de mim. Mas me sinto estranha. Passo despercebida quando transito na multidão que se esbarra nos shopping centres; nenhum rosto me parece conhecido, não me lembram nada, tudo novo como quando aquí pisei pela primeira vez. Nas filas do supermercado, todas intermináveis, fico observando as pessoas como se não estivesse ali, como se fosse mera espectadora. Enquanto isso minha mente se ocupa em traçar comparações de toda ordem e me leva a crer que hoje sou um misto de coisas que as vezes nem combinam, o que de imediato me garante um certo ar de satisfação. Sou aquela mulher na fila que, de pé, abaixa as alças da blusa para amamantar o filho impaciente. Sou também o pudor de fazê-lo em tal ambiente, apinhado de gente e saio para onde sempre há um lugar reservado aos cuidados com os bebês. Sou o cliente que reclama do preço registrado, totalmente diferente do que está disposto junto ao produto na prateleira, e fica a esperar por um longo tempo por alguém que resolva o impasse, quando enfim decide ele mesmo sair em busca da etiqueta para provar que está certo. Mas sou também o cliente que tem sempre razão e não precisa mais do que afirmar que o preço registrado não está correto e dizer, ele mesmo, o valor a ser considerado. Sou a pessoa que fura a fila como se ninguém pudesse vê-la, a que deixa o carrinho guardando seu lugar e fica a ir e vir, trazendo lotes de produtos até enchê-lo por completo, a que obriga a todos a esperar para que vá buscar algo que esqueceu, a que não teve aprovação do cartão de crédito e resolve ligar para a central e declarar alto e em bom tom tudo o que não nos interessa sobre sua vida financiera, sou o cliente de trás que esbarra o carrinho em seu tornozelo e não pede desculpas, o rapaz que trabalha como caixa e não se dirige a você com um cordial bom dia ou ainda um volte sempre…Mas sou também uma certa formalidade nas relações, uma gentileza que muitas vezes nos distancia de tão cuidadosa, uma fila onde as pessoas não se tocam, um não saber da vida do outro que nos mantém na superficie, um milhão de desculpas que se diz por minuto, a preocupação em não causar problema ao próximo. Sou cidade grande e cidade pequena, muro pichado, lixo nas calçadas e casas sem muros, multa para quem joga papel da rua. Sou medo de ser assaltada ( estou em pânico!) e da mesma forma a certeza de que ninguém invadirá minha propriedade. Estrangeira em minha própria terra, sou também cidadã, totalmente indignada.

Escrito no Brasil em junho de 2006 Posted by Picasa

5 comentários:

Marcia Du disse...

Na verdade estava com saudades de isso que vc é. Saudades de vc, de seus escritos.
Mas... Será que nossa educação sempre não nos levam a crer que temos que ser isto ou aquilo? Ser isso e aquilo é ser esquisofrenico, o que nos obriga a escolher.
Saudades!!
Muitas saudades...

Anônimo disse...

Finalmente!
Adorei.
Beijos

MIluce

Anônimo disse...

Adorei, Tia Dri...
Acho q a colisão entre esses dois mundos nos faz querer mudar o que não está nos satisfazendo...
E nos faz enxergar o valor que deve ser dado a cada um deles...
Saudades!!
:***

Anônimo disse...

Adorei, Tia Dri...
Acho q a colisão entre esses dois mundos nos faz querer mudar o que não está nos satisfazendo...
E nos faz enxergar o valor que deve ser dado a cada um deles...
Saudades!!
:***
Andrea

Antero Coelho - Fotógrafo disse...

visitei seu blog...e foi uma grata surpresa...um blog no sentido inicial dos blogs...um diario...mesmo que não seja "diario"..escolhi ess post para colocar minha mensagem porque fala de Brasil...de contrastes...posso parecer injenuo...ma ainda acredito em minha nação...que não tem nada a ver com seus governantes...pelo contrario....graças a eles..se mostra uma das mais ricas nações do mundo....pois ´so uma nação muito rica para aguentar tais desmandos...