9 de nov de 2014

Sobre o Suposto Orgulho Hétero- Para além da semântica

Amizade a parte, meu caro amigo, preciso falar-lhe a respeito do que vem chamando de orgulho hétero. Mais que uma inadequação semântica, pasme, o que você sente não é orgulho. Você se sente aliviado.  

Sentir atração pelo sexo oposto não é necessariamente uma escolha sua, assim como nunca foi escolha minha. Desde sempre nos identificamos com os personagens héteros, esmagadora maioria, que habitam os livros, a telona, a telinha, os almoços de domingo dentro dos armários... as historias em quadrinhos. Por isso e por uma série de outros motivos do gênero, não senti uma vez sequer orgulho por ficar arrepiada ou enrubecida diante de um exemplar da espécie masculina que me causou interesse, este muitas vezes inexplicável. O máximo que tive que driblar foi a falta de cerimônia de alguns palpiteiros de plantão a comentar sobre a quantidade e/ou qualidade de meus relacionamentos, todos eles héteros. Repito, não vejo como posso ter sentido orgulho por não ter me apaixonado pela filha da vizinha ou uma colega de classe.  Isso simplesmente nunca me ocorreu, simples assim.   

Por outro lado, observei comovida a história de amigos e familiares que, ao contrário do que eu havia experimentado, sentiam atração pelo mesmo sexo e muitas vezes desdobravam-se em culpas e desculpas para explicar e justificar o que nem eles conseguiam a princípio entender. Sim, era um alivio não ter que mentir para mim mesma e para os que me cercavam sobre minha orientação sexual. E que bom poder demonstrar carinho explicitamente em qualquer lugar por onde passava com o sujeito do meu amor. Que delícia sonhar com uma família igualzinha aquela que via nas propagandas de margarina: pai, mãe e filhos, uma menina e um menino, já repletos de nomes imaginados quando eu ainda era adolescente. Sim, um verdadeiro alivio. Orgulho nunca.

Orgulho tenho eu de meus feitos duramente conquistados. Daquilo que a princípio parecia ser impossível realizar e que, determinada, fiz acontecer. Orgulho sinto quando penso nas vezes que resisti aos apelos da maioria e mantive no bolso todas as pedras feitas pra atirar sobre o meu próximo, estivesse este próximo ou não; por não me sentir impelida a explicar aos entes queridos que, sim os amo, mas não amo as suas escolhas; por não me dar ao direito de decidir se amo ou não as escolhas que não são definitivamente da minha conta.    
Muitas vezes também sinto alivio. Alivio por não trazer comigo a marca do ódio e da intolerância, por ter aprendido em casa a amar incondicionalmente; por ter nascido em uma família e conviver com um grupo de amigos que, em sua maioria, não sente orgulho daquilo que não fez por onde merecer. Alivio por ter tido a chance de conhecer por dentro muitos armários abertos e por, muito cedo, ter descoberto que aqueles que o habitaram um dia são tão dignos de respeito e de admiração quanto os que cresceram fora dele.

E você, caro amigo, ainda que aliviado, bem que podia começar a pensar em sentir orgulho um dia por ter se permitido lançar um novo olhar sobre as diferenças e passar a distribuir promessas rumo a um mundo plural. Isso sim, seria um alivio!