10 de mar de 2012

Branco que Te Quero Multicor


Lembro-me que quando menina ficava a esperar meu pai chegar do trabalho à noitinha. Escolhia estrategicamente um lugar para brincar perto da porta da frente, só para ouvir o barulho da chave girar na fechadura e então correr para o abraço. Nosso amor era assim mesmo, barulhento, indisfarçável. Ele me rodava no ar e gargalhava, como se também estivesse esperando por aquele momento atrás da porta.
Na mão trazia uma pasta, daquelas executivas, com chavinha e tudo, embora esta nunca estivesse trancada. Depois do abraço ele a abria e vez por outra trazia algo especialmente encomendado no dia anterior: uma revista, um pirulito que fosse, algo que viu pelo caminho de casa oferecido por um vendedor ambulante... era sempre uma bem-vinda surpresa!
Em um desses dias- meu pai contava esta história com uma ponta de constrangimento- lá estava eu, olhos atentos depois do abraço, a espera do que sairia daquela pasta que mais se parecia com uma cartola de mágico. Foi feito suspense; ele dizia que trazia algo muito especial para mim que eu nunca havia recebido antes. Para falar a verdade, não me lembro deste dia e nem do que se seguiu depois disso. Mas, segundo meu pai contava, quase como uma confissão de culpa, ele pretendia fazer uma brincadeira, pois o que na verdade trazia na tal pasta era uma folha de papel comum, branca, sem atrativo ou diferencial algum. Chegou a se preparar para um segundo abraço, já contando com minha frustração frente ao suposto presente, aparentemente sem sentido algum.
Mas não foi nada disso o que aconteceu. Ao ver a folha de papel vazia, saindo daquela pasta mágica, dei pulos de alegria, saltei em seu colo agradecida e corri para buscar minha caixa de lápis coloridos para começar a desenhar meus sonhos sobre ela. Aquela não era uma folha comum, nunca seria. Tudo o que vinha de meu pai trazia em si uma promessa.
Desde então acho que busco as folhas vazias como quem ainda deseja presentes. Desde então desenho florzinhas e bolinhas, arabescos e listrinhas em espaços vazios nas agendas e calendários... Desde então sou grata ao meu pai por cada vez que transformo uma folha em branco em um texto, uma carta, uma pintura, uma lista de planos para o futuro, uma frase solta que seja.
Não me lembro se dediquei aquele desenho ao meu pai; talvez tenha colorido aquela folha com coraçõezinhos e frases de amor, como o fiz tantas vezes ao longo de minha infância. Talvez não. Mas com certeza, de alguma forma, cada espaço que preencho, cada investimento, cada conquista, os momentos de superação, são todos dedicados a ele, que sempre me acenou com folhas em branco, na certeza de que eu colocaria minhas cores e nuances sobre elas.
Que venham então as folhas em branco!