21 de jul. de 2011

Pessoas "AS-IS"




Acho que já revelei minha paixão por lojas de usados com tudo o que estas oferecem, incluindo os ávidos e invisíveis ácaros, passeando lépidos nos vãos de tecidos embolorados, e também a energia de sobra que emana no ambiente, fruto das histórias que cada elemento ali disposto tem pra contar. Gasto então horas a fio, olhos atentos, buscando algo que me faça sorrir. Quase sempre saio de lá às gargalhadas. Fico me perguntando por que alguém teria se desfeito de certos objetos tão cheios de charme, adquirido outros de gosto pra lá de duvidoso e me divirto buscando respostas, quase sempre improváveis. Mas quem se importa?

Alguns destes objetos, em geral os eletrônicos, trazem uma etiqueta de cor chamativa que informa “AS IS”. Em inglês, isso significa expressamente que o produto ali oferecido está sendo vendido tal e qual ali se encontra e o comprador deve assumir todo e qualquer risco no caso de um possível mau funcionamento do mesmo. Uma vez decidido a levar este para casa, não pode mais reclamar, tem que assumir por sua própria conta algum reparo, caso não venha a funcionar a contento. Baseada em minhas próprias experiências, quase sempre é possível achar bons negócios no terreno dos “AS IS”, mas é bem verdade que tomar riscos, a meu ver, não é propriamente um problema.

Assim na loja de usados como na vida. Tenho constatado que as pessoas que habitam meu mundo, aquelas em que mais confio e têm marcado presença de maneira significativa em minha rotina, são as que trazem na alma, como eu, uma etiqueta “AS IS”. Nem me lembro mais exatamente quando e onde as encontrei, afinal de contas, mesmo em se tratando de alguém que conhecemos de longas datas, tem um dia em que pessoas deste tipo simplesmente se reconhecem. Há as que trabalham juntas, saem de vez em quando, quem sabe toda semana, se reúnem no Natal, no jogo do Brasil, freqüentam as mesmas festas de aniversário, trocam emails e torpedos, fazem parte do mesmo grupo social, mesma família...mas ainda assim não é garantia de amor incondicional . Quase sempre isso só acontece quando uma das partes está precisando de um apoio extra, afinal ser feliz quando está tudo em paz é bom demais, mas não dá direito a levar a tal etiqueta de “AS IS”.

As pessoas “AS IS” , quando se encontram, se aceitam do jeitinho que são. Se comprometem a assumir todo e qualquer risco para manter o bom funcionamento da relação, apesar das diferenças, dos humores, da TPM, da concepção de mundo e de Deus, da falta de tempo, da distância, da opinião do outro, da conta bancária... e mais, são livres pra falar o que pensam , sem esperar que a outra parte venha necessariamente promover uma mudança na maneira de agir ou pensar por receio de ser removido do caderninho de endereços ou da caixa de mensagens que seja, quando não da própria vida.

Faz algum tempo que decidi tatuar em minha alma uma etiqueta “AS IS”. Só pra ter a certeza de que posso continuar a ser singular e ao mesmo tempo aberta para repensar possíveis e bem-vindas mudanças em minha vida inspiradas nas lentes com que o outro vê o mundo, desde que sejam na medida de minhas possibilidades e desejos.

Afinal, caso não esteja satisfeito com uma pessoa “AS IS” que encontrou nas prateleiras do dia-a-dia, devoluções são aceitas naquele mesmo lugar, embora sem direito a recompensa de qualquer ordem. Sem dúvida, há de surgir em breve alguém a se perguntar por que haveriam de ter deixado tal interessante alma dando sopa por ali.