21 de abr de 2016

Sim, Somos Belas



 

Minha mãe bem me avisou, enquanto  me descabelava para por em dia as matérias escolares às vésperas de um vestibular, almejando uma carreira profissional promissora que me garantisse um oficio digno e bem remunerado, que o melhor emprego era mesmo um bom marido. Claro que não se referia a um homem belo, recatado e do lar, pois estes predicados eram certamente restritos, nos idos anos 80, às mulheres casadoiras. 

Provocada, promovia discursos em que quase sempre terminavam com uma exclamação indignada da genitora, que dizia: “esta tem cabelinho na venta”, e completava “vai chorar lágrimas de sangue”. Mesmo quando não era capaz de entender o que o tal cabelinho na venta significava pra valer, me negava a aceitar que algo muito ruim estava necessariamente destinado àquelas mulheres que ousassem transgredir a ordem de um tempo que já havia passado. Teimosa, paguei pra ver.

As lágrimas de sangue acabaram por vir, pra mim, pras recatadas e recatados ou muito pelo contrário, obviamente por motivos distintos. Não me consta que alguém escape das agruras inerentes `a nossa condição de passageiros de uma fração do tempo, sejamos nós do lar ou não.  A propósito, sou do lar, ou melhor, dos lares. Embora tenha vivido até então em 28 moradias ao longo de um pouco mais  de meio século e  investido firmemente no sonho da asa própria, me divirto em distribuir cores pelos vãos da sala de visitas, criar sabores inusitados na cozinha que me cerca e onde são mais que bem-vindos aqueles que prezo,  organizar em caixinhas de todos os tamanhos minhas bugigangas e papéis que contam histórias. Sem falar que sinto prazer em perfilar os livros que mais gosto em estantes, mesas de cabeceiras e banquinhos ao redor da casa.  Mas sou também da rua; adoro bater perna sem rumo e nem hora pra voltar.  

Agora, vamos combinar que, recatada, nunca fui. E que, não sei porque, é impossível lembrar de um momento sequer em que o tal recato tenha me feito falta.  Me ressentiria por certo caso o respeito ao próximo, a integridade e a capacidade de me maravilhar, traços de caráter que admiro,  fugissem de minha alçada. Mas o recato, confesso, muitas vezes me assusta. Especialmente quando é indicado como sinônimo de decência, honestidade e decoro e então usado convenientemente por homens e mulheres para legitimar as suas próprias faltas.

Recato nada tem a ver com o empenho em proteger a sua própria reputação, como rezam os dicionários. Ao contrário, pode mesmo comprometê-la seriamente.  Com quantas chicotadas se faz uma mulher recatada? Com quantos mil reis? Quantos segredos se escondem sob mantos, vestidos compridos e véus? Quantos centímetros de pele expostos para justificar um estupro?  Quantos sins ainda serão proferidos no lugar da vontade de dizer não e vice versa?    

Não foi à toa que virei noites a fio e bati boca pra me livrar de um estigma que ainda compromete o caminhar de tantas mulheres ao redor do mundo e sobrevive, muitas vezes impune, nos porões de  sociedades machistas.  Não foi à toa que encorajei minha filha a valorizar a sua própria existência e seus desejos e se lançasse em busca de sua plenitude, mesmo quando a sociedade parecia não estar de acordo com suas escolhas. Não, não foi à toa que mostrei a meu filho que por trás de toda aparente fragilidade feminina há um admirável e incessante ser que pulsa e pensa, se supera e move o mundo; e não foi com palavras que isso se deu. Não é à toa que sou grata a meu pai por não permitir que eu me rendesse a normas descabidas que me desvalorizassem como ser humano e a minha mãe que, finalmente, se convenceu que minhas escolhas eram legítimas, embora não convencionais.     

Sim, somos belas. A revelia do que escolhemos para vestir e de como construímos e recriamos relações baseadas no respeito mútuo, na forma como nos lançamos sobre os nossos sonhos e buscamos o próprio prazer, na maneira como nos desdobramos em facetas que se sobrepõe e nos fazem encantadoras, mesmo quando exaustas. Podemos ser do lar ou não, desde que isso nos dê e gere satisfação e intensifique a nossa plenitude. `As recatadas de plantão, minhas desculpas, mas não me representam.


"Eu sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.
(...) Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.
Sou um coração batendo no mundo." 
 Clarice Lispector

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