8 de jun de 2011

Minha Vida em Preto e Branco




A pergunta me pegou de surpresa:

“Mãe, quando a sua vida era em preto e branco, você tinha que ir à escola?”

Imediatamente me dei conta de que, aos olhos de minha filha, à época com quatro anos de idade, eu havia vivido alguns dos melhores anos de minha vida em um cenário monocromático, tal e qual revelado em algumas de minhas fotos de infância. Pior, afirmei que tinha sim que ir à escola, onde a professora usava um giz branco para escrever em um quadro negro coisas que nós alunos tínhamos que copiar com um lápis preto em um papel branco.

Não havia dúvida alguma que faltavam cores em meio às poses, quase sempre pouco naturais, das pessoas retratadas naquelas fotos sobre a mesa. Mesmo assim, eu as olhava com uma ternura comovente e fingia lembrar exatamente os tons e matizes de cada elemento ali capturado, como quem obedece ao comando imaginário disposto no canto superior de cada foto: “Para Colorir".

Olhei pra ela de novo e sorri. Pensei em falar sobre as cores que eu podia ver sobre as fotos, enquanto meus dedos corriam sobre as mesmas...”Veja, o portão era vermelho, este vestido era azul turquesa com detalhes brancos, a frente da casa ...”, mas seria em vão. Se havia algo nesse mundo descolorido que me encantava era um certo ar de mistério que prescindia as palavras, as explicações; nada parecido com a versatilidade dos smart phones, a precisão dos GPS, a praticidade dos microondas, o alcance das redes de relacionamento virtual, as fotos coloridas, digitalizadas e retocadas graças ao Photoshop, enfim, um mundo com cheiro de novo, certamente bem-vindo, eu diria.

Além disso, havia a certeza de que, no futuro, minha filha haveria de tirar vantagem do fato de que aquela mãe ali presente, e finalmente em cores, tinha mantido a fechadura da alma no estilo retrô, com um buraquinho sempre aberto, convidando-a a espiar as tonalidades do que ficou pra trás, na época em que minha vida era em preto e branco.


Picture from: http://www.layoutsparks.com/1/67786/lost-key-hole-eye.html

3 comentários:

Jil disse...

Muito boa e com seu estilo próprio do qual eu gosto muito. Bjo

Hilra disse...

Lindissimo recorte de uma realidade tao intrigante, essa que se metamorfoseia o tempo todo. Seu jeito de emoldurar essas experiencias, de pintar tudo com muitas cores, ainda que aquelas imagens em preto e branco estejam sempre algures. Amo quando voce escreve. Saudade do seu colorido por perto.

Mirela disse...

Como sempre, ótimo!
E hoje não podemos nem nos imaginar em viver sem esse 'mundo com cheiro de novo'