25 de mai de 2008

Necessidade e DeSeJo


A sacola era bonitinha ou, na melhor das hipóteses, original. Preta por fora, rodeada por um zipper multicor que, quando aberto, mostrava um interior decorado por figuras japonesas, tipo cartoon, em um tecido fino de nylon. Havia um chaveiro pendurado de um bonequinho não identificado, preso a um detalhe em couro. Pois bem, o detalhe em couro foi o primeiro sinal de que aquela sacola perdida em meio a tantas outras, na minha loja de objetos usados preferida, poderia ser um objeto de um certo valor. Não que eu me empenhe intencionalmente em achar tesouros onde a princípio só se vê traças e bolor; minha sincera intenção em uma loja desse tipo é me divertir. Entenda-se por diversão a relação lúdica estabelecida com os objetos ali dispostos, irremediavelmente ofertados, uma vez que, desprezados por outrem, muitas vezes injustamente, parecem pedir para serem levados para casa. Eu, por minha vez, me sinto atraída por esse jogo, certamente terapêutico, e tiro vantagem do prazer de poder decidir o que vai e o que fica. Pois bem, sem saber definitivamente nada sobre a tal sacola de estilo pós-moderno anotei cuidadosamente na mente o nome sonoro bordado no bolso da frente: Tokidoki for Lesportsac. Para completar, escondi a mesma atrás de todas as outras disponíveis para ganhar tempo, caso decidisse voltar para pegá-la depois de fazer uma pesquisa básica no Google sobre a origem do achado de inspiração japonesa com um nome puxado para o francês.

A verdade é que tive que voltar correndo à loja, a sacola com motivos criados pelo designer italiano Simone Legno, pra lá de fashion, estava cotada no Ebay por trezentos dólares e o anúncio dizia que a padronagem era rara e estava se tornando cobiçada por colecionadores. Como essa história tem final feliz, a sacola estava lá, esperando por mim. Olhei desconfiada para a mesma, afinal o site oficial da Tokidoki fazia um alerta para as imitações que estavam sendo vendidas mundo afora e dava orientações detalhadas sobre o que deveria se buscar em uma original. Conferi a marca que deveria constar na parte interna do zipper colorido, a etiqueta que indicava que era feita na China e não nos Estados Unidos, a impressão da marca que deveria estar nos dois lados dos ganchos de metal... tudo conferia. A sacola de dez dólares era mesmo original.

Ao voltar para casa, percebi que junto com a sacola trouxe uma série de dúvidas, como por exemplo, como conseguimos sobreviver nós, os mortais preocupados com as contas a pagar, a compra da casa própria, o plano de aposentadoria e, quando dá tempo, com a viagem de nossos sonhos, sem nos dar conta do universo paralelo que dificilmente cruza nossa rotina, onde objetos simples são agregados a valores e conceitos inimagináveis para não dizer, para nós, impagáveis.

Longe de mim ser irônica. Impossível não lembrar dos Titãs sem me emocionar: “ A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. O problema é que até a comida tá chegando com um certo esforço.

Mas a dúvida maior permanece. O que fazer com a bolsa de nylon com detalhes em couro, que traz em seu interior a expressão genuína do amor de um artista italiano pela cultura japonesa, em parceria com uma bem sucedida empresa americana, que repousa no carpete ao lado da cama de uma por ora desempregada a espera de um destino digno (quer seja pra ela ou pra mim)? Se você tiver tempo, entre um pão e outro de cada dia, manda sugestões nessa página. Se já ta com a vida ganha, estou aceitando ofertas, em dinheiro, pela sacola do nylon de ouro.

Para saber mais sobre a Tokidoki e a Lesportsac:

http://blog.fernandaweber.com/2007/03/07/tokidoki-for-lesport-sac/#comments

http://aletp.com/2007/01/18/toy-art-nova-epidemia/
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Um comentário:

Anônimo disse...

Só vc mesmo pra escrever om tant maestria sobre nossos problemas do cotidiano.
A verdade mesmo é que até a comida está chegando com certa dificuldade.