AmeRiCanDo: verbo reflexo; brincando de tomar modos americanos; buscando adaptar-se ao modo de vida americano, embora senhora de uma alma cosmopolita e apesar da saudade
10 de mar. de 2012
Branco que Te Quero Multicor
21 de jul. de 2011
Pessoas "AS-IS"
Alguns destes objetos, em geral os eletrônicos, trazem uma etiqueta de cor chamativa que informa “AS IS”. Em inglês, isso significa expressamente que o produto ali oferecido está sendo vendido tal e qual ali se encontra e o comprador deve assumir todo e qualquer risco no caso de um possível mau funcionamento do mesmo. Uma vez decidido a levar este para casa, não pode mais reclamar, tem que assumir por sua própria conta algum reparo, caso não venha a funcionar a contento. Baseada em minhas próprias experiências, quase sempre é possível achar bons negócios no terreno dos “AS IS”, mas é bem verdade que tomar riscos, a meu ver, não é propriamente um problema.
Assim na loja de usados como na vida. Tenho constatado que as pessoas que habitam meu mundo, aquelas em que mais confio e têm marcado presença de maneira significativa em minha rotina, são as que trazem na alma, como eu, uma etiqueta “AS IS”. Nem me lembro mais exatamente quando e onde as encontrei, afinal de contas, mesmo em se tratando de alguém que conhecemos de longas datas, tem um dia em que pessoas deste tipo simplesmente se reconhecem. Há as que trabalham juntas, saem de vez em quando, quem sabe toda semana, se reúnem no Natal, no jogo do Brasil, freqüentam as mesmas festas de aniversário, trocam emails e torpedos, fazem parte do mesmo grupo social, mesma família...mas ainda assim não é garantia de amor incondicional . Quase sempre isso só acontece quando uma das partes está precisando de um apoio extra, afinal ser feliz quando está tudo em paz é bom demais, mas não dá direito a levar a tal etiqueta de “AS IS”.
As pessoas “AS IS” , quando se encontram, se aceitam do jeitinho que são. Se comprometem a assumir todo e qualquer risco para manter o bom funcionamento da relação, apesar das diferenças, dos humores, da TPM, da concepção de mundo e de Deus, da falta de tempo, da distância, da opinião do outro, da conta bancária... e mais, são livres pra falar o que pensam , sem esperar que a outra parte venha necessariamente promover uma mudança na maneira de agir ou pensar por receio de ser removido do caderninho de endereços ou da caixa de mensagens que seja, quando não da própria vida.
Faz algum tempo que decidi tatuar em minha alma uma etiqueta “AS IS”. Só pra ter a certeza de que posso continuar a ser singular e ao mesmo tempo aberta para repensar possíveis e bem-vindas mudanças em minha vida inspiradas nas lentes com que o outro vê o mundo, desde que sejam na medida de minhas possibilidades e desejos.
Afinal, caso não esteja satisfeito com uma pessoa “AS IS” que encontrou nas prateleiras do dia-a-dia, devoluções são aceitas naquele mesmo lugar, embora sem direito a recompensa de qualquer ordem. Sem dúvida, há de surgir em breve alguém a se perguntar por que haveriam de ter deixado tal interessante alma dando sopa por ali.
8 de jun. de 2011
Minha Vida em Preto e Branco

A pergunta me pegou de surpresa:
“Mãe, quando a sua vida era em preto e branco, você tinha que ir à escola?”
Imediatamente me dei conta de que, aos olhos de minha filha, à época com quatro anos de idade, eu havia vivido alguns dos melhores anos de minha vida em um cenário monocromático, tal e qual revelado em algumas de minhas fotos de infância. Pior, afirmei que tinha sim que ir à escola, onde a professora usava um giz branco para escrever em um quadro negro coisas que nós alunos tínhamos que copiar com um lápis preto em um papel branco.
Não havia dúvida alguma que faltavam cores em meio às poses, quase sempre pouco naturais, das pessoas retratadas naquelas fotos sobre a mesa. Mesmo assim, eu as olhava com uma ternura comovente e fingia lembrar exatamente os tons e matizes de cada elemento ali capturado, como quem obedece ao comando imaginário disposto no canto superior de cada foto: “Para Colorir".
Olhei pra ela de novo e sorri. Pensei em falar sobre as cores que eu podia ver sobre as fotos, enquanto meus dedos corriam sobre as mesmas...”Veja, o portão era vermelho, este vestido era azul turquesa com detalhes brancos, a frente da casa ...”, mas seria em vão. Se havia algo nesse mundo descolorido que me encantava era um certo ar de mistério que prescindia as palavras, as explicações; nada parecido com a versatilidade dos smart phones, a precisão dos GPS, a praticidade dos microondas, o alcance das redes de relacionamento virtual, as fotos coloridas, digitalizadas e retocadas graças ao Photoshop, enfim, um mundo com cheiro de novo, certamente bem-vindo, eu diria.
Além disso, havia a certeza de que, no futuro, minha filha haveria de tirar vantagem do fato de que aquela mãe ali presente, e finalmente em cores, tinha mantido a fechadura da alma no estilo retrô, com um buraquinho sempre aberto, convidando-a a espiar as tonalidades do que ficou pra trás, na época em que minha vida era em preto e branco.
Picture from: http://www.layoutsparks.com/1/67786/lost-key-hole-eye.html
16 de mai. de 2011
Sobre o que Dizem as Caixas- ou a razão de tantas mudanças em minha vida
Sempre gostei de caixas. Coloridas, de todos os tamanhos, lembranças de tempos, lugares e pessoas distantes ou não, cheias de compartimentos, reentrâncias, fechaduras e segredos. Algo me faz crer que, todas elas, uma vez abertas, começam a contar histórias, assim como as caixinhas de música deixam escapar uma melodia cada vez que levantamos a tampa em busca de pequenos tesouros.As caixas que abro em meu porão de lembranças , uma a uma, me colocam no colo e falam baixinho de coisas que muitas vezes já havia esquecido, algumas que nem gostaria de lembrar e outras ainda que, embora velhas conhecidas, voltam a surpreender. A verdade é que, atenta ao que dizem, sempre demoro mais do que o previsto pra colocá-las dentro dos enormes caixotes de mudança, estes também cheios de mistérios, quando na iminência de mais uma partida.
Então é por isso que não posso deixar que as raízes cheguem a tomar o lugar das asas ... é preciso sair, de porto em porto, de porta em porta, levando minhas caixas pra passear...caso contrário, ficariam caladas para sempre.
Picture- K. Madison Moore Contemporary Fine Artist- inspirado em Picasso. Outros trabalhos do mesmo autor baseados em obras dos grandes mestres: http://l.wbx.me/l/?p=1&instId=51f03c89-a0ad-4b80-8d2d-9a7ba815f329&token=336d033310e24d5a2d12abf7ec3ebda2617da8fe0000012fee6c284f&u=http%3A%2F%2Fwww.kmadisonmooreartistportfolio.com
25 de mar. de 2011
A Mola no Fim do Poço

Dizem que no fundo de todo poço existe uma molinha e que esta, quando atingida, nos impulsiona de volta à superfície, livres e lépidos. Mesmo estando ainda em plena queda livre, aqui me encontro, disposta a falar mais de molas do que de poços; o problema é que chegar ao fundo destes leva um certo tempo e aguardo impaciente o momento do impacto, quando fatalmente serei impulsionada rumo ao caminho inverso àquele que me levou escuridão abaixo.
Você pode chamar a molinha como quiser, ela atende pelo nome de providência divina, acaso, segredo, anjo da guarda, pensamento positivo, fé, merecimento, destino...e outros tantos apelidos, todos justificadamente carinhosos. É que quem experimenta a queda, durante seu aparente interminável trajeto, aprende a manter contato profundo com um mundo invisível, onde habitam personagens muitas vezes desconhecidos, a começar por você mesmo.
Antes da tal molinha aparecer, a gente passa a conviver com sensações nem sempre bem-vindas: o choro vem fácil, o mundo vai acabar, todos parecem mais irritantes do que nunca, mais lentos, mais ingratos, comumente ineficientes...os talentos pessoais desaparecem , óbvios que sejam; nada parece excitante, saboroso ou convidativo. Dormir é sempre visto como uma boa saída; mas quem falou que o sono vem fácil para todos aqueles que caíram no tal poço?
Porém, um belo dia, sem qualquer aviso prévio, pelo menos não daqueles que vêm por escrito, a gente dorme miserável e acorda bem cedo com uma esperança surpreendente; é que quando se chega num certo ponto do poço, atinge-se a superfície da molinha e esta finalmente move-se para baixo com força diretamente proporcional ao peso do corpo e da alma ( sim, nesta época tudo isso fica ainda mais pesado) é então que algo nos diz que a queda está perto do fim.
Estar perto do fim não é o fim. Depois de meses caindo, ninguém está necessariamente preparado para vir à tona. Sim, porque quando a mola passa a atuar, sequer dá tempo de passar um batonzinho básico. É a hora do vamos que vamos ou se agarra na mola e fica ai pra sempre, meu bem. Melhor sair de cara lavada mesmo que ficar condenado a esperar resgate pelo resto da vida.
É sabido, contudo, que há quem prefira ali se instalar, travestidos de vítimas do mundo, chegam a ignorar as operações de salvamento. Outros desenvolvem hiper sensibilidade à luz e, quando na superfície, se lançam, aliviados, de volta à escuridão já conhecida.
Depois de um certo tempo caindo, é comum se começar a duvidar da existência das molas propulsoras. Mas, quando isso acontece, é só um sinal de que elas estão bem próximas e não tarda a hora em que virão em seu socorro. Diretamente do fundo do poço, provavelmente a poucos minutos de ser lançada para fora desse tubo escuro e frio, aceno com um sinal de esperança:
Yo no creo en molas propulsoras, pero que las hay, las hay
24 de fev. de 2011

Olho para os lados...meu exército se encontra tão camuflado que já não o reconheço. Vontade de cair pra trás e dormir 300 anos seguidos.
14 de fev. de 2011
"Esses Moços..."

Longe de achar que sou expert em romance, embora tenha uma ficha corrida repleta de dores de cotovelos, paixões arrebatadoras e ditas eternas, casamentos e seus desdobramentos, ciúmes infundados ou não, dias iguais, momentos excepcionais, vontade de sumir, desejo de fazer o tempo parar...
Ahhhh, o amor... hummm, a paixão.
Decidi portanto correr um risco: elaborar um despretensioso guia prático para jovens mulheres apaixonadas, entre elas, filhas, sobrinhas e agregadas. Claro que alertas do tipo não fazem efeito algum antes que se chegue aos 40 e nem sem que estas amealhem algumas desilusões no caminho, além dos dias de puro êxtase. Mas, certamente, vale a piada:
1- Seu parceiro NÃO vai se tornar príncipe quando você beijá-lo, muito menos depois do casamento. Se sonha com a realeza, ignore os sapos.
2- Quase sempre as mulheres vivem um dilema quando precisam escolher entre homens: lindos mas infiéis; românticos mas sem pegada; desatenciosos mas honestos e trabalhadores; sem tempo pra nada mas senhores de uma carreira promissora; bonzinhos mas intelectualmente limitados; perfeitos mas comprometidos, divertidos mas gays...e mais um milhão de combinações possíveis quando se tratam de contradições inerentes à espécie. Melhor aceitar que elas existem e decidir o que você espera do bofe HOJE...pois quando juntar as escovas a tendência do que vem depois do “mas” é se intensificar e do que vem antes é ficar perdido entre as almofadas do sofá da sala.
3- Se você acha que faz o tipo “eu quero você como eu quero”, escolha entre as categorias dissimulados, infelizes, previamente traídos ou desprovidos de atrativos físicos ou dinheiro no bolso. Ninguém, mesmo os supracitados, aguenta fingir por muito tempo. Se não escutam bem, no entanto, há uma chance de que suportem por um pouco mais de tempo a pressão externa.
4- Homem charmoso, elegante, inteligente, bem sucedido, honesto, companheiro, fiel, sensível, sensual e apaixonado, atencioso, tudo ao mesmo tempo, é o tipo de mercadoria que “tem, mas tá faltando”. E não me consta que as mulheres que estão em busca do mesmo sejam necessariamente igualmente qualificadas.
5- Se você quer ouvir que é amada, linda, elegante, inteligente, sensível e tentadora 24 horas por dia e seu parceiro não é do tipo romântico é melhor mandá-lo pro banco de reserva antes do final do primeiro tempo. Se é verdade que a gente não mexe em time que está ganhando o mesmo não se aplica para aquele que foi pra segunda divisão sem chance de voltar pra primeira nos próximos trinta anos. Os homens ditos racionais, por sua vez, devem procurar torcedoras que não se importem em sofrer pelo time do coração mesmo derrotadas; caso contrário, correm o risco de serem chamados de insensíveis pro resto da vida. Não, as mulheres também não vão mudar.
6- E pra terminar, vale acreditar na velha frase da vovó: “para cada panela, uma tampa”. Se você ainda não encontrou a sua ou está usando aquela que não foi exatamente feita pra você, pense se vale à pena perder tempo achando que uma das partes um dia vai ter que mudar pra atender às necessidades da outra. Com boa vontade a gente pode até fazer certos ajustes, mas pessoas, como as panelas e as tampas, quando não combinam, sob forte calor, terminam por deixar vir à tona elementos indesejáveis e difíceis de limpar no final. Afinidades e encaixe são fundamentais. Às pessoas e às panelas.
2 de fev. de 2011
Amigos que Mudam e Amigos que se Mudam
Há amigos que se mudam e nada muda; viram a esquina, atravessam o oceano de mala e cuia, têm filhos, fazem mestrado e doutorado, encontram novos amigos, casam e descasam, ganham dinheiro, mudam de religião, de time de futebol...mas entre nós nada muda, só se for pra melhor.
Há amigos que se mudam e mudam; você pensa que vai ser aquela festa o reencontro, já que deu até uma mãozinha na mudança, levou champanhe pra comemorar, mandou cartão de boa sorte na nova morada, quase chorou no aeroporto... e de repente dá de cara com outra pessoa, definitivamente não aquela que você chamava de amigo. Mudam de casa, de cidade, de estado ou país e no caminho, sem que se perceba, tudo muda.
Há amigos que nunca se mudam e nada muda; estes você sabe exatamente aonde encontrar. Pode mandar carta sem erro, vai chegar, o endereço é o mesmo desde sempre, assim como a maneira como você é recebido na mesa do café, o jeito de abraçar, de sorrir, de dar a mão...de dizer que você é bem-vindo, que pode entrar que a casa é sua e, de quebra, o convidam pra passear pelas lembranças como se o tempo não tivesse passado.
Há amigos que nunca se mudam e mudam; estes constroem um muro alto bem na frente do jardim que vocês costumavam jogar bola e brincar de pique-esconde. Você passa na rua e nem reconhece o lugar. Pior que isso é encontrar os tais amigos e constatar que eles, por onde andam,carregam consigo outros muros, todos instransponíveis.
Mas a verdade é que cada amigo, os que mudam, os que se mudam, os que não mudam e os que não se mudam, mantêm em si um pouco de você. A diferença é que os que não mudam sabem disso e gostam e os que mudam também sabem disso, mas não gostam. Pena que , neste caso, não se possa fazer nada pra mudar.
Foto by Adriana
22 de dez. de 2010
Nada do Que foi Será
Considerando que não sei ao certo até quando vou habitar este planeta, é possível até que eu já esteja na meia idade e não tenha dado conta. O fato é que algumas tarefas simples, realizadas com primor nos anos dourados, não vêm sendo praticadas com a mesma desenvoltura. Outras então, que deixei para depois, parecem que perderam a chance de serem incluídas como parte do meu currículo pessoal.
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Levantamento de caixas, por exemplo, é uma atividade que delego aos mais jovens sem delongas, desde que dei um jeito na região lombar enquanto organizava o porão para o Natal e fiquei duas semanas dormindo sobre um travesseiro de gelo.
Mastigar os comprimidos antes de engoli-los, a fim de evitar um engasgo, como fiz regularmente por algumas décadas, passou a ser evitado; o custo com o tratamento dos dentes, hoje mais fragilizados, se tornou inviável e, por que não dizer desnecessário; afinal, para que servem aquelas pecinhas com lâminas embutidas compradas em qualquer supermercado na América que partem os medicamentos uniformemente em quantas partes se queira?
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo
Subir escadas correndo, tomar sol sem protetor, sair sem os óculos de leitura, comer pele de frango tostadinha, insistir em tocar a ponta dos pés quando sentada no chão de pernas abertas durante a ginástica, resolver de repente praticar um esporte radical, trocar pneu do carro, me cobrar em saber de cabeça a idade dos sobrinhos e afilhados que crescem com uma rapidez nunca vista, achar que as roupas que usava há anos atrás devem se manter no armário como prova de que não mudei quase nada, cair na tentação de me vestir de acordo com o último hit da moda quando este inclui as mini saias que deixam a mostra os joelhos enrugados, evitar um sorriso aberto pra não deixar que as ruguinhas perto dos olhos surjam saltitantes, discutir a relação, o sexo dos anjos, a origem do universo, provar quem está certo, disputar títulos acadêmicos, acender a fogueira das vaidades, passar mais do que 24 horas lamentando uma perda material ou amargando uma deslealdade vinda de um suposto amigo...são atividades a que não me permito mais. Sem direito a dor de consciência, autopunição ou mazelas do tipo.
Agora
Há tanta vida lá fora, aqui dentro
Afinal, além de me poupar de uma série de constrangimentos, sobra mais tempo pra fazer aquilo que gosto, de estar com quem me faz feliz e que cabe exatamente no tamanho de minhas pretensões.
Tudo passa, tudo sempre passará.
4 de dez. de 2010
Are you Smarter than your Smart Phone? Você é mais Inteligente que seu Telefone Inteligente?
Depois disso, novidade era comprar telefones que não fossem os pretos básicos e pesados e mais tarde os beges e até vermelhos, todos, vistos de hoje, na minha opinião, um charme. Quem viajava pro exterior, pro vizinho Paraguai que fosse, trazia na certa um exemplar engraçadinho de telefones fora do padrão, estes nem sempre eficientes na arte de se fazer ouvir. No final acabavam mesmo como decoração na cabeceira do quarto.
Pouco a pouco os telefones com disco foram substituídos pelos de tecla, embora ambos tenham atravessado décadas juntos. Vamos combinar que o barulhinho do disco girando e voltando ao ponto inicial , número a número, era irresistível.
Mas chique mesmo passou a ser possuir um telefone sem fio e andar pela casa desfiando conversas intermináveis, tomando o cuidado de evitar algum cômodo onde o mesmo não funcionava bem; a gente nem sabia, mas já estava ensaiando para aturar o incoveniente fato de estarmos quase sempre "fora da área de cobertura" tempos mais tarde. As mesinhas com cadeirinha de lado, concebidas para portar o telefone, o catálogo, o livrinho de endereços e o bloco de papel de anotações com uma canetinha do lado viraram peça de museu. Mas durante algum tempo, a tal mesinha e os primeiros celulares chegaram a flertar. Devido ao tamanho e às limitações dos primeiros exemplares, na primeira chance, corria-se para casa em busca da antiguidade, onde repousava um também avantajado carregador que garantia mais algumas poucas horas de papo.
Hoje, depois de quinze anos enfrentando áreas de coberturas descobertas, números de barras (in)disponíveis, aparelhos que cabem na palma da mão e se perdem nos vãos das bolsas, clones de câmeras fotográficas aos montes em shows ao vivo, exercícios de flexão em locais improváveis em busca de conexão, ringtones de gosto duvidoso tocando em momentos nada apropriados, alunos ávidos teclando embaixo da carteira enquanto fingiam prestar atenção à minha aula duramente planejada...vejo que ainda não vi nada. Pelo menos nada igual ao que meu smart phone promete. Sim, ele calcula, desperta, dispõe de mais de mil músicas de minha preferência, faz anotações, grava, filma, tira fotografias de qualidade bem razoável, orienta com precisão aonde vc está e como chegar ao destino desejado, sugere eventos, indica restaurantes e lojas, teatros e atrações locais, dá acesso à internet, oferece jogos diversos, informa a temperatura e o dia da semana, a cotação do dólar, o índice dow jones, se faz alvo incansável de torpedos, e, ainda por cima, faz ligações. Imbatível, ele vibra intensamente.
Se você não tem tempo de voltar para os bancos escolares e/ou o parceiro não é uma Brastemp, tenta um IPhone; eu recomendo.
18 de nov. de 2010
Brincadeira de Criança é Coisa Séria
- How old are you?
Em tradução literal, do inglês para português, a questão soa como "quão velha é você?". Não foi difícil responder. Até então, beirando os 50, a meia idade parecia bem-vinda. Tenho evitado conflitos com o tempo; talvez porque não acredite em milagres.
Respondi ao meu pequeno interlocutor e parceiro na montagem do quebra-cabeças que, sendo ele americano, chamava de puzzle:
- 47.
Após um interminável silêncio de 10 segundos, acompanhado de um olhar bastante indignado, vindo de um garotinho de 5 anos que havia gentilmente aceitado ficar quatro dias sob meus cuidados, não resisti à réplica
-Por quê?
Ele respirou fundo antes de responder, aparentando impaciência. Didaticamente, apontou para a caixa do jogo onde estava indicada a idade sugerida pelo fabricante para os supostos interessados em juntar aquelas peças: 5 a 8 anos. Devo ter ficado vermelha, caso contrário ele não teria murmurado de forma condescendente:
-It's ok. Go ahead.
Nem sei mais quantas peças coloquei depois disso. Meu senso de autoproteção insistia em me convencer de que, quando perguntou minha idade, o esperto garotinho não esperava por quase 40 anos a mais da idade limite ali determinada...quem sabe aos seus olhos eu parecia mais jovem? Foi quando o meu senso do ridículo gritou retumbante:
-Touché!
15 de nov. de 2010
Passarinhando
Tudo em vão. Se tem uma coisa que os pássaros reconhecem de longe é gente que sonha em ter asas.
9 de nov. de 2010
Profecia

Já faz muito tempo que me emocionei ao receber um azulejo pintado das mãos do filhote, em um Dia das Maes comemorado na escola. Quem tem filho em idade escolar sabe que estes dias são planejados cuidadosamente para render lágrimas, abraços, beijinhos e até saudades de um tempo que nem passou...ainda.
Seja você do tipo durona ou manteiga derretida, não importa; nem que seja uma lagrimazinha vai acabar soltando enquanto procura seu filho em meio a umas duas dúzias de crianças e de professoras saltitantes, balançando cartazes, se movimentando desajeitado, buscando entonar a musiquinha às vezes de gosto duvidoso. E, mesmo assim, você chora comovida.
Ontem, mexendo nas caixas de lembranças, reencontrei o tal presentinho e , desta vez, foi o desenho que me chamou a atenção. Lá estava ele, Filipe, em pleno voo, protegido por um para-quedas, não sei ao certo se partindo ou chegando. E pude reconhecer a mim mesma, ao longe, em frente de casa, respondendo ao aceno. Com licença pela livre interpretação, diria que intimamente feliz. Porque durante esse tempo em que o azulejo ficou escondido na memória, aprendi a admirar a iniciativa dos que se lançam em busca de seus sonhos, estejam eles aonde estiverem.
Vinte e dois anos depois que o coloquei em meus braços pela primeira vez, e outros tantos depois da profecia em forma de arte, posso dizer, não sem evitar mais algumas lágrimas daquelas que fluem fácil, que tenho muito orgulho do filho sensível, dedicado, generoso e cheio de talento que, entre idas e vindas, sempre me encanta. Que este seja, portanto, mais um feliz aniversario!
8 de nov. de 2010
Verde que te quero Amarelo e Alaranjado

Sem olhar para os lados, procurei rapidamente os tons de verde na caixa de lápis de cor que havia levado para a escola e recomecei o trabalho na aula de artes.
Com um nó na garganta, havia visto meu desenho ser sumariamente amassado e atirado no cesto de lixo, seguido por resmungos irritados.
Que importa? Àquela época não poderia mesmo responder afirmativamente à pergunta, feita segundos antes, pela insensível professora:
- Você por um acaso já viu árvores amarelas e alaranjadas?
2 de nov. de 2010
" Fi-lo porque Qui-lo"

Agora, ao contrário do Brasil, um analfabeto americano dificilmente poderia fazer valer seu direito de escolher seus representantes. Não se trata de discriminação, eu explico. Em meio às dezenas de opções de candidatos para os cargos legislativos locais e estaduais, o que inclui, além dos senadores, representantes do congresso e governadores, também há de se votar em juízes e promotores de quem nunca se ouviu falar. Mas os referendos e seus textos longuíssimos e pouco claros são a grande dor de cabeça que costuma confundir os eleitores. Estes, tratam de temas tão variados quanto a legalização da maconha, a proibição de criadouros de cães, passando pelo aumento de impostos para investimento na segurança pública ou a abolição da reforma da saúde. E não dá pra deixar esta parte da prova em branco, quem quer votar nos candidatos de sua preferência tem que responder também ao plebiscito, sem direito a cola ou coisas do tipo.
Isso me faz pensar que se o voto fosse obrigatório nos Estados Unidos, inclusive para os que só assinam seu nome, como ocorre no Brasil, se fariam necessários cursos de média e longa duração sobre como preencher aquelas enormes cédulas de votação. Se fosse americano, Tiririca, com certeza, não conseguiria votar nem em si próprio. Pelo menos não antes de aprender a segurar uma caneta com firmeza.
22 de out. de 2010
Arteira

Marido viajando por três semanas. Casa super silenciosa com uma filha na escola e a outra no Brasil, mãe entretida em seus quebra-cabeças. Almoço estrategicamente pronto, desde ontem. Um ar de satisfação ronda o ambiente. É verdade que não está necessariamente nos planos sair por aí a procura de uma balada; a casa nunca me pareceu palco pra tantas aventuras. A vontade de transgredir passa pela ousadia de gostar de estar sozinha e poder tomar decisões sem ter que esperar pelos outros.
Comecei meus 21 dias de solidão atirando tintas sobre uma tela enorme que comprei por uma pechincha. Já tinha feito inúmeras tentativas de terminar a obra, mas não estava satisfeita. Foi quando pretensiosamente me lembrei de Picasso e da idéia de que um quadro nunca está terminado, nós é que desistimos dele. Pois bem, desisti feliz da vida e corri pra pendurar o mesmo na sala de jantar, a fim de garantir mais luz e cor ao ambiente.
Dei dois passos para trás e gostei do que vi, mesmo certa de que o marido vai reclamar por eu não ter esperado por ele para fazer o furo na parede da maneira correta, talvez antes mesmo de elogiar a pintura... mas é o preço que se paga quando se tem desejo de felicidade imediata. Maridos nunca cumprem as tarefas domésticas no tempo regulamentar. Rápido como quem rouba, o fiz, e , melhor, fiquei igualmente orgulhosa de mim mesma, pela pintura e pelo furo. Este último, quase perfeito.
21 de out. de 2010
To fu or not To fu? Eis a questão

Confesso estar confusa nesse mundo organicamente correto. Se ontem troquei, não sem resistência, um bife de picanha por uma porção de proteína de soja, leite com aquela natinha que formava uma capa sobre o líquido por uma substância quase transparente com apelido de skim milk, enchi meu prato de verdinhos e vermelhos e laranjas com azeite extra virgem pra todo lado, tomei suco de laranja com couve, coloquei linhaça até sobre feijão, comi pão integral com imitação de manteiga e ovo falso que vinha em uma embalagem do tipo longa vida...hoje não sei mais se vou ser salva pela divina providência gastronômica dos saudáveis dos últimos dias.
O fato é que peguei mania de ler artigos médicos publicados nas revistas de vida saudável e ver programas de alimentação alternativa na TV, mas já vi ser impossível acompanhar as considerações dos pesquisadores desta área. Primeiro, porque entre si eles ainda não chegaram a conclusões definitivas. Um dia proclamam que a soja é a salvação de todos os males que assolam a vida das mulheres e seus rompantes de humor; quisera eu poder aplacar minha vontade de matar alguém naqueles dias que antecedem aqueles outros com um pedaço de tofu três vezes por semana. Depois me vêm com a história de que o uso da soja é responsável por uma infinidade de efeitos colaterais, com direito a publicações do tipo terrorista: "A Verdadeira História da Soja", entre outros.
Dentre as pesquisas divulgadas, há quem afirme por exemplo que o uso da soja em homens baixou consideravelmente os níveis de testosterona provocando impotência sexual e nas mulheres representou maior risco de desenvolverem câncer de mama, além da baixa da libido...mas, por sua vez, o seu uso poderia reduzir os riscos de problemas no coração. Pergunto a mim mesma que tipo de moléstia seria menos danosa. Morrer sem tesão ou do coração?
Afirmam alguns que as razões para tais malefícios atendem pelo nome de duas isoflavonas com nome de dupla sertaneja: genisteína e daidzeína. A esta altura eu jogo pro lado a revista especializada e juro que nunca mais assisto ao Globo Repórter.
Pelo menos pra alguma coisa hão de servir estas pesquisas todas. Na hora de arranjar desculpa pra um eventual mau desempenho sexual ou ainda um substituto pra velha "dor de cabeça", homens e mulheres podem bravar redimidos: "maldita soja!"
25 de set. de 2009
Pretérito Perfeito
Brincar com as palavras sempre foi seu jogo favorito. Ainda pequena, me aventurava em uma busca incansável pelas estantes da biblioteca repleta de livros em busca de um pequeno exemplar de capa azul que guardava alguns dos poemas que gostava . Pouco entendia o código escrito e menos ainda o que dizia a mensagem travestida de signos, mas me rendia fácil a cadência das palavras que pareciam criar vida na medida em que você as recitava. Conheci o fascínio das histórias infantis que você criava, ambientadas no labirinto da imaginação. Voamos em um cavalinho misterioso que, quase todas as noites, se aproximava da janela, sem ter idéia de onde poderíamos chegar. Foi quando você me fez acreditar em sonhos e me encorajou a cultivar minhas próprias aspirações. Aprendi então a amar as letras e mais tarde o universo que habita as entrelinhas.No entanto, logo percebi que a mais valiosa lição que aprenderia com você jamais seria proferida através das palavras. Sua atitude generosa como ser humano, o espírito conciliador, o posicionamento crítico, a dedicação ao trabalho, o respeito às diferenças, o amor incondicional aos familiares e amigos, revelados através de uma gentileza ímpar e um bom humor infindo, falavam por si. Com certeza, a forma equilibrada com que viu o mundo, sem se render aos sobressaltos dos extremos, mérito dos sábios, será ponto de referência para aqueles com quem conviveu.
Ficará a saudade de seu sorriso fácil, do abraço franco, da mente fértil, da maneira como incentivou a mim e a meus irmãos a nos valorizarmos e seguirmos confiantes rumo às nossas conquistas. Ficarão as fotos que contam sua história, as cartas e emails trocados, o livro que publicou. Sem dúvida, ficarrão as marcas indeléveis de sua presença em nossa vida, porque pessoas como você, pai, não passam.
Naquela última tarde no hospital, quando as palavras pareciam não dizer mais nada, soprei no seu ouvido a mesma música que, inúmeras vezes, cantou para me ninar. Com o auxílio majestoso de um doce violino, deixei que o som de Sertaneja o embalasse e então, desta vez, você dormiu. E descansou.
Agora, a saudade sussurra baixinho uma outra melodia, que canta uma certeza: aonde quer que eu vá levo você no olhar...
15 de set. de 2009
Dúvida Existencial

Alguém de um lado da linha dá início ao diálogo supostamente corriqueiro:
- “Associação dos Pobres e Desvalidos da Última Crise Financeira Mundial Tentando Sobreviver Dignamente”, bom dia, como posso ajudar?
- Bom dia! Gostaria de falar com o Senhor João Não sei das Quantas, por favor…
- Quem deseja? – pergunta a voz se esforçando em parecer impessoal.
- Diga que é a Adriana.- fingindo ser pessoal.
- Adriana de onde?
Não sou muito de titubear frente a perguntas desconcertantes, mas esta me tira do sério. Na verdade o “Quem deseja?” já me desconcentra. Não é à toa; o dicionário Aurélio explica a minha dispersão: Desejar- querer a realização, a posse de; apetecer; ambicionar; cobiçar. É no mínimo inadequado quando seu intuito é simplesmente obter uma informação mais clara de alguém que, até segunda ordem, não lhe desperta nenhum tipo específico de desejo . Seria perfeito se a ligação fosse, por exemplo, para o Gianechini; a resposta estaria na ponta da lingua:
- Sou eu, Adriana, quem deseja; eu e a torcida do Flamengo, a comunidade Eu Odeio a Marília Gabriela, o bloco de carnaval Mamãe eu quero ser a Preta Gil …
Pois bem, depois de vencida essa primeira etapa, vem a insuperável “Adriana de onde?” Já tentei ensaiar a resposta, simples que fosse, mas a mania de crise existencial sempre me persegue e então me remete imediatamente a um conflito filosófico devastador, algo comparado a ter que tentar explicar no perfil do Orkut com poucas palavras o “Quem sou eu?” É bom salientar que é divertidíssimo navegar pelas páginas dos orkutianos, amigos ou não, e checar como descrevem, ou não, a si mesmos; há comentáros imperdíveis, dignos de deixar Sofia, a personagem do livro de Jostein Gaarder, com orgulho de seu próprio mundo.
Tento então respirar fundo e responder algo que, imagino, atenda aos anseios do interlocutor:
- Adriana, filha do Batista e da Rosa, irmã do Alexandre, Sérgio e Ana Lúcia, mãe do Filipe e da Dani, boadrasta da Nina e do Matheus, esposa do Marcus, ex-mulher do Vinícius, que antes namorou o… - de repente, acaba virando novela mexicana.
Nova tentativa:
- Adriana que trabalhou muito tempo como educadora, em Fortaleza, mas por ora está desempregada, cheia de planos de trabalho que continuam engavetados por pura falta de serotonina, comum no climatério, e por isso sem ânimo e/ou reserva financeira para colocá-los em prática…
Melhor ser pragmática:
-Adriana, aqui de Nevada, nos Estados Unidos, que morava no Kentucky, depois de se mudar de Fortaleza, onde chegou aos 11 anos, vinda do Rio de Janeiro, para onde se mudou quando saiu de Washington DC, onde circunstancialmente nasceu.
Melhor ser sincera:
- Adriana, ele não me conhece…na verdade nem eu me (re) conheço mais. Depois dos 40 as pálpebras começaram a pesar e cobrem a parte anterior dos olhos; manchas senis multiplicam-se indiscriminadamente na pele lembrando que um dia me estatalei feliz da vida na areia quente de uma praia qualquer achando que ia abafar dentro do vestido de alcinhas branco na tertúlia do clube; as marcas das espinhas, que deixei o namorado espremer quando não havia nada mais interessante a fazer naquele domingo a tarde, parecem crateras quando vistas no espelho que aumenta a imagem dez vezes que comprei pra fazer as sobrancelhas desde que passei a não enxergar mais de perto como antes; os cabelos brancos, devidamente coloridos de 20 em 20 dias, já são maioria absoluta no universo capilar; os joelhos recebem um revestimento de rugas oriundo da pele das coxas, cujos músculos não as suportam mais, literalmente; as veias das mãos, creia, saltam e me pergunto se elas sempre foram azuis…
O jeito é mentir:
-Adriana, ele sabe quem é.
Na dúvida, isso sempre funciona.
Photo: Trabalho bordado por Joetta Maue que exibe instalações em vários museus como Historic Interpretations at Peabody Historical Society Museum em Salem, Ma., Masur Museum em Monroe, LA., e no ReSurrect at Mesa Contemporary Art Center, em Mesa, Arizona. Em breve estará no Lion Brand Yarn Studio em NY, NY e na Gallery LELE in Tokyo, Japan.
Ela mantém um blog sobre trabalhos manuais muitíssimo interessante, o Little Yellowbird: http://www.littleyellowbirds.blogspot.com/ e seu trabalho pode ser visto no http://www.joettamaue.com/
Vale a pena conferir!
17 de mai. de 2009
Espelho, espelho seu
Quem é a menina que fita surpresa a imagem no espelho com ar de mulher feita?
Quem é a mulher que brinca de menina quando longe do reflexo que ora melindra ora encanta?
Ambas hão de descobrir um dia, tardio que seja, que os espelhos, precipitados,antecipam segredos sobre um tempo que, por dentro de nós, ainda não passou.
7 de abr. de 2009
Casamento entre Iguais

Foi então que as minorias sexuais e simpatizantes resolveram dar o troco e distribuíram camisetas e adesivos nos carros com os dizeres:
Pelo jeito, os indianos e seus casamentos arranjados, a preservação das castas e o expurgo aos dalits não me parece coisa de outro mundo, como nos faz acreditar a tal da novela das oito. Se pelo menos aqueles que acham que podem decidir quem deve se casar com quem tivessem a gentileza de escolher noivos e noivas da categoria dos artistas da Rede Globo, todos sensuais, estonteantes e ricos...quem sabe eu vestiria a camisa da causa:
24 de mar. de 2009
Mães Analógicas, Filhos Digitais
O filho estava afundado no sofá da sala de televisão sorrindo para algo que só ele podia ver no visor do celular, até porque, mesmo que quisesse, depois dos 40, a mãe já não identificava, desenhos que fossem, de uma distância tão curta. Há muito que, uma vez nos restaurantes, esperava alguém mais jovem fazer o pedido para que, em seguida, dissesse ao garçon fingindo naturalidade:
-Boa pedida! Traz o mesmo pra mim, só que bem passado -tudo para evitar ter que esticar os braços com o cardápio nas mãos, apertando os olhos no intuito de fixar o foco sobre as sugestões do chefe e jurar, mais uma vez, que os membros superiores estavam, definitivamente, encolhendo a olhos (quase) vistos.
Tentou então chamar a atenção do filho com o celébre e previsível ruído da coceira na garganta, mas não funcionou. Foi quando ela decidiu perguntar direta e ironicamente:
- Não me conhece mais?
O filho tirou rapidamente os olhos do celular e olhou pra ela com um leve ar de surpresa seguido de um sorrisinho bobo:
-Tá difeeeeeerente, mãezona!
-Diferente de que?-pergunta ela um tom acima do normal.
-Daquela foto.
-Foto? Que foto?
-Como que foto? – voltou a teclar no celular enquanto falava, o que a irritou profundamente. -A foto do seu perfil naquela página da net, a que você pediu preu mudar na semana passada.
Depois de alguns segundos, ela sussura:
-Photoshop.
-Heim?
A mãe suspira fundo e cria coragem:
-Pho-to-sho-pe, ouviu agora? Paguei uma nota pra aquele seu amigo retocar minha foto do perfil e dá nisso...você fala que estou irreconhecível.
-Eu não falei que cê estava irreconhecível, mãe, falei diferente.
-Ah, tá, diferente. Devo estar mesmo muito diferente ou você pelo menos me cumprimentaria ao chegar em casa. Tô desconfiada de que seu pai também pensa o mesmo, pois vive a olhar pros lados dizendo que está me procurando. Culpa do seu amigo que me deixou com a boca da Angelina Jolie.
O filho continuava a pressionar com agilidade desconcertante as teclas daquele celular e, quase simultaneamente, manuseava o controle da televisão para mudar os canais de cinco em cinco minutos, como bem reza o códico genético masculino.
-Foi você que pediu assim...
-Euuuu? Só falei que me deixasse 10 anos mais moça, atraente, mas não esquecesse que eu era uma engajada senhora, mãe de 6 filhos...
-Então...cê descreveu a Angelina, culpa sua.
-Culpa minha? Se pelo menos o Brad Pitt viesse junto com o pacote...
-Aí, mãe, o bro nao prometeu fazer milagre...- falou rindo, embora ela não estivesse certa se o motivo da manifestação de contentamento teria sido provocada pelo comentário dela ou pela mensagem virtual que acabara de receber.
É, seria mesmo um milagre se o marido resolvesse gastar trinta minutos diários caminhando na esteira pra ver como ele funcionava sem a barriguinha básica e tentasse, pelo menos, simular o jeito de andar do Brad. Não parecia muito, mas melhor que nada para ela que, fora a tal foto montada, exposta no site de relacionamentos e os 6 filhos, de Angelina não tinha nada.
-Pensei que faria economia ao trocar a lipoaspiração pela lipodigitação ...mas já vi que o mundo virtual não nos livra das mazelas de sempre...e, por falar nisso, vê se cai na real e vai dar um jeito no seu quarto, faz dias que nem arruma a cama.
-Cama?- perguntou distraído sem mover os olhos.
-Sim, cama, ou voce pensa que quem vive na rede não tem que arrumar a cama? Acha que o quarto é autolimpante? Que pode simplesmente reencaminhar suas obrigações? –queria parecer antenada com o vocabulário vigente, mas agradeceu intimamente o fato do filho não estar atento aos seus comentários toscos...felizmente ela não tinha aprendido ainda a enviar torpedos pelo celular, ou teria que suportar o constrangimento de ver seu discurso barato ser sumariamente de-le-ta-do.
18 de mar. de 2009
Quem tem Roupa vai a Roma
Estava buscando um bom motivo pra voltar a escrever. Não que me faltasse assunto; do último post, em outubro, até hoje, muita coisa aconteceu dentro e fora de mim mesma e vontade não faltou para que eu traduzisse meus anseios em palavras... mas tenho experimentado ultimamente maneiras novas de me autosabotar e levei um certo tempo para descobrir onde escondia as armadilhas que me impedem de andar livremente pelos meus outdoors. Me restou ficar olhando pra dentro mais tempo que o necessário, pois quando isso ultrapassa a marca do segundo tempo, significa que a partida esta quase perdida contra mim mesma; acabo deixando que a autopiedade bata os penaltis e comemore com festa a vitória no embate.Pois bem, foi nesse clima de não estou entendendo bem onde você quer chegar (se é que pensa em chegar a algum lugar) que ouvi a notícia na TV em que o jornal do Vaticano publicou por ocasião do Dia Internacional da Mulher, afirmando que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da espécie feminina no século XX do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho. Foi o suficiente para que saisse do estado letárgico em que me encontrava e parasse de sentir pena de mim mesma, afinal acabara de conquistar minha carta de alforria com a compra recente de uma máquina de lavar último modelo e, de sobra, uma secadora que fazia par perfeito com o tal instrumento de libertação e nem havia me dado conta disso; me encontrava injustificadamente presa às questoes sobre a minha condição, como uma fêmea insaciável no sentido mais sôfrego da palavra.
O título do artigo ainda me parecia mais intrigante: “A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe”. Bem sabe-se que Bento XVI nao entende nada de máquinas de lavar, pra nao falar de mulheres, ou saberia que relaxar não é o termo correto para quem, depois de fechar a bendita tampa, se desdobra em novas tarefas, sejam elas dentro ou fora de casa.
Pra quem fica em casa depois do baixar da tampa, restam as tarefas do tipo cama, mesa e banho, a comida da família (que agora tem que obedecer a um cardápio organicamente correto, oh céus!), os emails não respondidos há séculos (afinal dona de casa digital é imperativo nos dias de hoje), os cuidados com as crianças (que devem crescer saudáveis, educadas, cultas e , ainda por cima, felizes), as farpas dos adolescentes (estes sim insaciáveis no sentido mais aprazível da palavra!), as insinuações do marido (que quase sempre não quis dizer nada do que você achou que ele disse), as cobranças pessoais do tipo "não foi pra isso que eu estudei a vida inteira".
Para quem sai ao fechar a tampa, surgem todas as tarefas que ninguém mais aceitou fazer, mas você, como fez de tudo pra pegar a tal posição no trabalho, o faz esboçando um sorriso no rosto, as briguinhas esporádicas entre colegas de profissão para decidir quem puxa mais o saco do chefe, o salário que não corresponde ao seu esforço principalmente por ser você do sexo feminino, a certeza de que você está fazendo história por conseguir pagar uma máquina de lavar a prestação que lhe permite sair de casa e perseguir seus sonhos. Porém, relaxar que é bom, seu Bento, não tá incluido em nenhuma destas listinhas, não.
Talvez na época do tanque e do sabão em pedra encontravam-se melhores motivos para não se acumular outras funções: "Não posso agora, to lavando roupa!" Mas uma vez que por ora é so fechar a tampa e deixar que a tecnologia tome conta do resto, bate aquela culpa se você não conseguir, além de garantir roupas macias e cheirosas, arcar devidamente com todos os papéis que lhe são impostos, afinal tem ainda quem conte com a tal da secadora, o aspirador de pó, a máquina de lavar pratos, o liquidificador, o processador de alimentos, o microondas... nesse caso é melhor nem pensar em deitar em um divã, pois não tem Freud que explique tamanha ineficiência, melhor seria consultar um desses gurus da area empresarial, que deve saber direitinho porque você não consegue otimizar seu tempo frente ao advento das novas tecnologias.
Quanto à pílula anticoncepcional e o acesso ao mercado de trabalho citados no artigo e a comparação destes com a suposta liberação feminina promovida pela máquina de lavar, tenho que fazer algumas considerações.
A pílula nos permite, sim, buscar prazer sem comprometimento com a reprodução da espécie ou a perpetuação do marido, o que me parece uma inquestionável contribuição para nos sentirmos livres (menos pelo fato de ter que lembrar de tomá-la todos os dias sem esquecer nem umazinha que é pra nao virar prisão perpétua).
O acesso ao mercado de trabalho por sua vez permite que nos sintamos produtivas e poderosas, cunsumidoras, loiras e lindas se assim o desejarmos e/ou a produção de cosméticos e a industria da lipoaspiração permitir e ainda, caso o salário seja suficiente para que paguemos por isso. Sem dúvida, pelo menos da vida doméstica 24 horas estamos livres.
Mesmo tentando não ser injusta com minha máquina de lavar, só vou mudar de opinião acerca desse tema, quando inventarem um modelo que venha com um dispositivo novo, algo relacionado com uma dessas pilulazinhas do prazer que, ao fechar a tampa, nos remeta a outro universo onde nao tenhamos contato com marido, filhos, patrões ou autoridades do tipo e durante a media de 30 minutos que durar o ciclo da lavagem (com direito a 2 enxagues em casos extremos) possamos ficar realmente livres pra bater papo com as amigas, escolher o canal da televisão, rir de nos mesmas e dos desafetos, sonhar com um futuro melhor e com um penteado novo, e, de quebra, dar um passeio de tapete voador pelos centros culturais mais badalados do mundo (mesmo se for de vassoura, tá valendo). Isso, Vossa Eminência, eu chamaria de liberdade de fato e por que nao dizer, de direito. E deixa eu ir que a minha máquina de lavar, fabricada com um sensor especial, emite um apito estridente quando a roupa está finalmente lavada. Acorda, Alice!
10 de out. de 2008
I'm So Frida!
Soube que ela demorou a escolher o vestido em meio a todas as cores de seu guarda roupa. Vestiu pelo menos três, antes de bater a porta e sair de casa. Escolheu um pretinho clássico, com saia rodada e detalhes florais brancos discretos, contrastando com uma barra alaranjada de motivos indígenas que também aparecia na pala da blusa, de onde saltavam o amarelo vivo e o vermelho, que por sua vez se insinuavam sob um leve manto negro. Na cabeça flores, na pele cores. Brincos, anéis e colares, claro, ou não seria Frida.
Tinha planejado a viagem há algum tempo mas não estava sendo fácil se organizar em meio ao ócio; quem tem todo o tempo do mundo parece ter que justificar para si mesmo porque não consegue fazer o que deseja e/ou precisa entre o nascer e o por do sol. Mas há tempos ela havia cansado de dar satisfações sobre sua vida, é bem provável que tenha nascido assim; cabelinho na venta, como diria sua mãe.
Estava ansiosa, mas tentou disfarçar quando se viu em meio ao engarrafamento na entrada da cidade. Impossível que nao fosse chegar a tempo, havia comprado os ingressos com antecedência e feito planos para sair pelas ruas de São Francisco depois da exibição. Que mania essa gente tinha de correr para cidade grande nos finais de semana, todos na mesma hora, pensou, enquanto, parada, era atraída pela paisagem ao redor. Decidiu que talvez seria a hora de olhar um pouco através de outra janela que nao aquela que dava para sua própria imagem. Assim tinha sido durante sua vida inteira, olhar para espelhos e retratar a si mesma. Impossibilitada de andar desde aquele acidente terrível, não lhe restou outra alternativa durante um longo tempo a nao ser conversar com as imagens que fazia de si mesma enquanto aprendia a olhar para dentro. Frida pintava o que via no espelho, mas do lado do avesso. Agora estava ali, resistindo olhar pelo retrovisor para que pudesse perceber o que estava fora de seu alcance, no mundo exterior.
Antes mesmo que se desse por vencida, os carros começaram a se mover novamente e em poucos minutos ela estava em frente ao Museu de Arte, em busca de estacionamento. Faltavam 10 minutos para o início do evento. Pensou que se Dieguito ali estivesse, faria as honras da casa e a mandaria ir na frente para nao perder um minuto da exibição. Mas quem disse que ele não estava? Diego Riviera sempre esteve com ela, de uma forma tão passional que até mesmo a sua imagem no espelho o refletia.
Frida entrou quase correndo no salão principal do museu repleto de pessoas. Esperou em uma fila por mais algum tempo até que dessem sinal para que entrasse na sala. Foi então que a encontrei. Desde o momento em que nossos olhos se cruzaram no meio de toda aquela gente que parecia estar parada, como os carros na entrada da cidade, nos reconhecemos. Nos fitamos por um longo período e quase nos arrastamos, de tela em tela, sem nos perdermos de vista. Eu com os olhos nela, ela com os olhos em mim. Igualmente expostas, passeamos por nossos atalhos pessoais, nos encontramos em algumas esquinas e então estivemos a anos luz de distância em outras. Definitivamente, faltavam algumas cores na minha aquarela que ela tinha de sobra. Achei que, em seu lugar, não suportaria tanta dor e que, se assim fosse, não tornaria isso público mas, no caso de fazê-lo, não seria tão literal e...a neguei três mil vezes antes de concluir que nunca havia me sentido so Frida!
Impressoes pos-exposicao de Frida Kahlo no MOMA de Sao Francisco, em 27 de Setembro de 2008
30 de ago. de 2008
Neologizando
Somos enrugáveis. Apesar dos cremes rejuvenescedores, do raio laser, do botox, da clínicas reparadoras, das vitaminas, das medidas preventivas, da medicina ortomolecular.
17 de ago. de 2008
E por falar em saudade...
Parei de brigar com a saudade quando era ainda uma garota. Cheguei a pensar que depois disso seríamos amigas e viveríamos felizes para sempre, mas isso aconteceu na mesma época em que deixei de acreditar em contos de fadas e então não houve mais jeito. Fizemos portanto um pacto. Viveríamos uma relação de fachada e nos suportaríamos mutuamente em nome da moral e dos bons costumes, como se passa com qualquer príncipe e princesa depois da última página do livro. E, como não poderia deixar de ser, comecei a inventar uma porção de desculpas esfarrapadas para justificar a permanência dela em minha vida. Feliz daquele que sente saudade, pensava eu com uma certa desconfiança, sinal de que se viveu algo significativo que nos mobilzou e agora nos faz falta. Mas esta é apenas a mais clássica. Há uma série de frases feitas que, confesso, acabam ajudando a retomar o rítmo da vida quando a saudade nos coloca em um estado letárgico e nos faz acreditar que nunca mais seremos os mesmos. Mas aí eu tenho até que concordar com ela. Ninguém sai impune depois de lidar com o vazio, mesmo sabendo que se manifesta de maneiras diferentes. Há aqueles vazios temporários, que a gente sabe ou acredita que voltará a ser preenchido mais cedo ou mais tarde e há aqueles que são do tipo mais profundo, onde se está certo de que nada pode preenchê-lo, pelo menos não com o que conhecemos a princípio. Mas seja qual for o tipo de saudade que se venha a sentir, daquelas que passam rapidinho, as que duram para sempre ou, ainda, aquelas do pior tipo, quando a gente nem viveu ainda a perda, mas já antecipa a dor, cabe a você decidir como vai reagir ao tal sentimento que faz doer mais do que qualquer outro. Se a gente ocupar o vazio com os próprios sonhos, vai descobrir que, apesar das lembranças do que se viveu e da dor por isso não estar mais acessível, o melhor é parar de olhar pra dentro, pra profundidade do vazio, e buscar onde fica a montanha que se formou com o que foi retirado do buraco que surgiu na alma. Lá do topo, o mundo vai parecer muito mais fascinante.
29 de jul. de 2008
BOLETIM MÉDICO- a quem interessar possa
Nem só de paparazzi vivem as celebridades. Se no lugar de impacientes com os flashes e a falta de privacidade se tornarem pacientes e vulneráveis na cama de um hospital, um outro elemento se encarregará de deixar a opinião pública (leia-se curiosos) informados sobre seu estado: os boletins médicos. Aguardados ansiosamente, divulgados amplamente e comentados indiscriminadamente, se tornaram um procedimento a mais na rotina dos médicos. Em pouco tempo, os formandos do curso de medicina terão que completar a frase no juramento de Hipócrates: "Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto" ... tudo o mais eu deixarei minunciosamente registrado em um Boletim Médico, que será livremente repassado, interpretado, quando não deturpado, por aqueles a quem a informação possa interessar diretamente ou não.
Sparks, 29 de julho de 2008, 8:00 PM.
Paciente: Adriana Horta Fernandes
No vigésimo quarto dia, desde que soube ser portadora de uma disfunção de natureza física de caráter permanente, uma dislipedemia* de ordem genética, depois de uma crise de faniquito agudo, com direito a baixa em hospital e tudo, mantém, por ora, estado clínico geral estável.
Nas últimas horas, evoluiu com quadro de perda de peso, devidamente justificado pela dieta sem direito às coisas boas da vida, como massas, açúcar e gorduras ( calma, restam as fibras!). Além disso, a enfermidade está sendo tratada com doses sistemáticas de exercícios aeróbicos, minutos de meditação e controlados com o uso de medicamento.
A paciente permanece consciente, certa de que deverá seguir rigidamente as recomendações médicas, a fim de evitar, antes de mais nada, que os sobressaltos com as contas médico-hospitalares que já começaram a chegar (alguém falou em saúde pública? Não aqui, na terra de Tio Sam!), lhe roubem o que lhe resta de energia e da poupança para a compra da casa. A mesma se encontra no quarto(na sala, na cozinha, por onde anda) sob terapia medicamentosa e suporte nutricional.
*Dislipedemia: “alto colesterol e triglicérides no sangue que combinados a outros fatores de risco podem levar ao infarto, derrame cerebral, invalidez precoce e morte” ( poderia eu não apresentar sintomas da crise do pânico com uma definição dessas?)
16 de jun. de 2008
Testamento Aberto
DA DIVISÃO DOS BENS NÃO-MATERIAIS-ainda em vida
-Para Juliana de Boni Fernandes, minha sobrinha, deixo o meu jeito de sorrir e a maneira de revelar com os olhos que se está feliz. Além disso, herdará a forma de se relacionar com as pessoas que ama , embora sendo ela senhora de uma naturalidade ímpar que há muito tempo já perdi.
-Deixo também a mania de escrever cartinhas, de colecionar amigos, de puxar assunto, de fazer perguntas que não têm respostas, de distribuir abraços e beijos e rir de bobagens, de chorar de saudade, de expressar o que sente, de viajar na garupa de um cavalinho misterioso e cuidar de uma bonequinha preta.
-Finalmente, será dela, a partir de hoje e então para sempre, o desejo de que o mundo venha a ser mais justo, mais colorido, mais alegre, mais criativo, mais tolerante, mais a sua cara.
Assim seja.
9 de jun. de 2008
São Francisco: 30 Imagens 100 Palavras
8.Vermelho 9. Trânsito 10.Deslize
11.Fantasia 12. Dia
13.Folego 14. Encanto
15.Preto 16. Dourado 17. Sinfonia
18.Marrom 19. Laranja 20. Azuis 21. Rosa
22.Sintonia 23. Fria
24.Velho 25. Fundos 26. Arte 27. Moderno
28.Espera.............................29.Melhor............. 30. Amigo
31.Ofício 32. Diversão 33. Mão 34. Contramão
35.Plástico 36. Lixo 37. Luxo 38. Plástica
39.Negro 40.Branco 41. Rubro 42. Batuque 43.Sombras
44.DiferentE 45. Iguais 46. Jornais
47. Busca 48. Viagem 49. Letras
50.Trilhos 51. Encontro 52. Passagem
53.Palco 54. Público 55. Preguiça
60.Cartazes 61. Apelos 62. Opostos
63.Cores 64. Kahlo 65. Próxima ida 66. Frida
67.Transeuntes 68. Pressa 69. Arranha 70. Céus
80.Flores 81. Reflexo 82. 18 oxelfeR
83.Turquesa 84. Turquesas
95.Oferta 96. Calçada 97. Verniz




