22 de out. de 2010

Arteira




Marido viajando por três semanas. Casa super silenciosa com uma filha na escola e a outra no Brasil, mãe entretida em seus quebra-cabeças. Almoço estrategicamente pronto, desde ontem. Um ar de satisfação ronda o ambiente. É verdade que não está necessariamente nos planos sair por aí a procura de uma balada; a casa nunca me pareceu palco pra tantas aventuras. A vontade de transgredir passa pela ousadia de gostar de estar sozinha e poder tomar decisões sem ter que esperar pelos outros.

Comecei meus 21 dias de solidão atirando tintas sobre uma tela enorme que comprei por uma pechincha. Já tinha feito inúmeras tentativas de terminar a obra, mas não estava satisfeita. Foi quando pretensiosamente me lembrei de Picasso e da idéia de que um quadro nunca está terminado, nós é que desistimos dele. Pois bem, desisti feliz da vida e corri pra pendurar o mesmo na sala de jantar, a fim de garantir mais luz e cor ao ambiente.

Dei dois passos para trás e gostei do que vi, mesmo certa de que o marido vai reclamar por eu não ter esperado por ele para fazer o furo na parede da maneira correta, talvez antes mesmo de elogiar a pintura... mas é o preço que se paga quando se tem desejo de felicidade imediata. Maridos nunca cumprem as tarefas domésticas no tempo regulamentar. Rápido como quem rouba, o fiz, e , melhor, fiquei igualmente orgulhosa de mim mesma, pela pintura e pelo furo. Este último, quase perfeito.

21 de out. de 2010

To fu or not To fu? Eis a questão


Confesso estar confusa nesse mundo organicamente correto. Se ontem troquei, não sem resistência, um bife de picanha por uma porção de proteína de soja, leite com aquela natinha que formava uma capa sobre o líquido por uma substância quase transparente com apelido de skim milk, enchi meu prato de verdinhos e vermelhos e laranjas com azeite extra virgem pra todo lado, tomei suco de laranja com couve, coloquei linhaça até sobre feijão, comi pão integral com imitação de manteiga e ovo falso que vinha em uma embalagem do tipo longa vida...hoje não sei mais se vou ser salva pela divina providência gastronômica dos saudáveis dos últimos dias.

O fato é que peguei mania de ler artigos médicos publicados nas revistas de vida saudável e ver programas de alimentação alternativa na TV, mas já vi ser impossível acompanhar as considerações dos pesquisadores desta área. Primeiro, porque entre si eles ainda não chegaram a conclusões definitivas. Um dia proclamam que a soja é a salvação de todos os males que assolam a vida das mulheres e seus rompantes de humor; quisera eu poder aplacar minha vontade de matar alguém naqueles dias que antecedem aqueles outros com um pedaço de tofu três vezes por semana. Depois me vêm com a história de que o uso da soja é responsável por uma infinidade de efeitos colaterais, com direito a publicações do tipo terrorista: "A Verdadeira História da Soja", entre outros.


Dentre as pesquisas divulgadas, há quem afirme por exemplo que o uso da soja em homens baixou consideravelmente os níveis de testosterona provocando impotência sexual e nas mulheres representou maior risco de desenvolverem câncer de mama, além da baixa da libido...mas, por sua vez, o seu uso poderia reduzir os riscos de problemas no coração. Pergunto a mim mesma que tipo de moléstia seria menos danosa. Morrer sem tesão ou do coração?

Afirmam alguns que as razões para tais malefícios atendem pelo nome de duas isoflavonas com nome de dupla sertaneja: genisteína e daidzeína. A esta altura eu jogo pro lado a revista especializada e juro que nunca mais assisto ao Globo Repórter.

Pelo menos pra alguma coisa hão de servir estas pesquisas todas. Na hora de arranjar desculpa pra um eventual mau desempenho sexual ou ainda um substituto pra velha "dor de cabeça", homens e mulheres podem bravar redimidos: "maldita soja!"

25 de set. de 2009

Pretérito Perfeito

Brincar com as palavras sempre foi seu jogo favorito. Ainda pequena, me aventurava em uma busca incansável pelas estantes da biblioteca repleta de livros em busca de um pequeno exemplar de capa azul que guardava alguns dos poemas que gostava . Pouco entendia o código escrito e menos ainda o que dizia a mensagem travestida de signos, mas me rendia fácil a cadência das palavras que pareciam criar vida na medida em que você as recitava. Conheci o fascínio das histórias infantis que você criava, ambientadas no labirinto da imaginação. Voamos em um cavalinho misterioso que, quase todas as noites, se aproximava da janela, sem ter idéia de onde poderíamos chegar. Foi quando você me fez acreditar em sonhos e me encorajou a cultivar minhas próprias aspirações. Aprendi então a amar as letras e mais tarde o universo que habita as entrelinhas.

No entanto, logo percebi que a mais valiosa lição que aprenderia com você jamais seria proferida através das palavras. Sua atitude generosa como ser humano, o espírito conciliador, o posicionamento crítico, a dedicação ao trabalho, o respeito às diferenças, o amor incondicional aos familiares e amigos, revelados através de uma gentileza ímpar e um bom humor infindo, falavam por si. Com certeza, a forma equilibrada com que viu o mundo, sem se render aos sobressaltos dos extremos, mérito dos sábios, será ponto de referência para aqueles com quem conviveu.

Ficará a saudade de seu sorriso fácil, do abraço franco, da mente fértil, da maneira como incentivou a mim e a meus irmãos a nos valorizarmos e seguirmos confiantes rumo às nossas conquistas. Ficarão as fotos que contam sua história, as cartas e emails trocados, o livro que publicou. Sem dúvida, ficarrão as marcas indeléveis de sua presença em nossa vida, porque pessoas como você, pai, não passam.

Naquela última tarde no hospital, quando as palavras pareciam não dizer mais nada, soprei no seu ouvido a mesma música que, inúmeras vezes, cantou para me ninar. Com o auxílio majestoso de um doce violino, deixei que o som de Sertaneja o embalasse e então, desta vez, você dormiu. E descansou.

Agora, a saudade sussurra baixinho uma outra melodia, que canta uma certeza: aonde quer que eu vá levo você no olhar...

15 de set. de 2009

Dúvida Existencial




Alguém de um lado da linha dá início ao diálogo supostamente corriqueiro:

- “Associação dos Pobres e Desvalidos da Última Crise Financeira Mundial Tentando Sobreviver Dignamente”, bom dia, como posso ajudar?

- Bom dia! Gostaria de falar com o Senhor João Não sei das Quantas, por favor…

- Quem deseja? – pergunta a voz se esforçando em parecer impessoal.

- Diga que é a Adriana.- fingindo ser pessoal.

- Adriana de onde?

Não sou muito de titubear frente a perguntas desconcertantes, mas esta me tira do sério. Na verdade o “Quem deseja?” já me desconcentra. Não é à toa; o dicionário Aurélio explica a minha dispersão: Desejar- querer a realização, a posse de; apetecer; ambicionar; cobiçar. É no mínimo inadequado quando seu intuito é simplesmente obter uma informação mais clara de alguém que, até segunda ordem, não lhe desperta nenhum tipo específico de desejo . Seria perfeito se a ligação fosse, por exemplo, para o Gianechini; a resposta estaria na ponta da lingua:

- Sou eu, Adriana, quem deseja; eu e a torcida do Flamengo, a comunidade Eu Odeio a Marília Gabriela, o bloco de carnaval Mamãe eu quero ser a Preta Gil …

Pois bem, depois de vencida essa primeira etapa, vem a insuperável “Adriana de onde?” Já tentei ensaiar a resposta, simples que fosse, mas a mania de crise existencial sempre me persegue e então me remete imediatamente a um conflito filosófico devastador, algo comparado a ter que tentar explicar no perfil do Orkut com poucas palavras o “Quem sou eu?” É bom salientar que é divertidíssimo navegar pelas páginas dos orkutianos, amigos ou não, e checar como descrevem, ou não, a si mesmos; há comentáros imperdíveis, dignos de deixar Sofia, a personagem do livro de Jostein Gaarder, com orgulho de seu próprio mundo.

Tento então respirar fundo e responder algo que, imagino, atenda aos anseios do interlocutor:

- Adriana, filha do Batista e da Rosa, irmã do Alexandre, Sérgio e Ana Lúcia, mãe do Filipe e da Dani, boadrasta da Nina e do Matheus, esposa do Marcus, ex-mulher do Vinícius, que antes namorou o… - de repente, acaba virando novela mexicana.

Nova tentativa:

- Adriana que trabalhou muito tempo como educadora, em Fortaleza, mas por ora está desempregada, cheia de planos de trabalho que continuam engavetados por pura falta de serotonina, comum no climatério, e por isso sem ânimo e/ou reserva financeira para colocá-los em prática…

Melhor ser pragmática:

-Adriana, aqui de Nevada, nos Estados Unidos, que morava no Kentucky, depois de se mudar de Fortaleza, onde chegou aos 11 anos, vinda do Rio de Janeiro, para onde se mudou quando saiu de Washington DC, onde circunstancialmente nasceu.

Melhor ser sincera:

- Adriana, ele não me conhece…na verdade nem eu me (re) conheço mais. Depois dos 40 as pálpebras começaram a pesar e cobrem a parte anterior dos olhos; manchas senis multiplicam-se indiscriminadamente na pele lembrando que um dia me estatalei feliz da vida na areia quente de uma praia qualquer achando que ia abafar dentro do vestido de alcinhas branco na tertúlia do clube; as marcas das espinhas, que deixei o namorado espremer quando não havia nada mais interessante a fazer naquele domingo a tarde, parecem crateras quando vistas no espelho que aumenta a imagem dez vezes que comprei pra fazer as sobrancelhas desde que passei a não enxergar mais de perto como antes; os cabelos brancos, devidamente coloridos de 20 em 20 dias, já são maioria absoluta no universo capilar; os joelhos recebem um revestimento de rugas oriundo da pele das coxas, cujos músculos não as suportam mais, literalmente; as veias das mãos, creia, saltam e me pergunto se elas sempre foram azuis…

O jeito é mentir:

-Adriana, ele sabe quem é.

Na dúvida, isso sempre funciona.


Photo: Trabalho bordado por Joetta Maue que exibe instalações em vários museus como Historic Interpretations at Peabody Historical Society Museum em Salem, Ma., Masur Museum em Monroe, LA., e no ReSurrect at Mesa Contemporary Art Center, em Mesa, Arizona. Em breve estará no Lion Brand Yarn Studio em NY, NY e na Gallery LELE in Tokyo, Japan.
Ela mantém um blog sobre trabalhos manuais muitíssimo interessante, o Little Yellowbird: http://www.littleyellowbirds.blogspot.com/
e seu trabalho pode ser visto no http://www.joettamaue.com/

Vale a pena conferir!

17 de mai. de 2009

Espelho, espelho seu


Quem é a menina que fita surpresa a imagem no espelho com ar de mulher feita?

Quem é a mulher que brinca de menina quando longe do reflexo que ora melindra ora encanta?

Ambas hão de descobrir um dia, tardio que seja, que os espelhos, precipitados,antecipam segredos sobre um tempo que, por dentro de nós, ainda não passou.

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7 de abr. de 2009

Casamento entre Iguais



Esta semana me deparei com a estampa de uma camiseta exposta por um transeunte que desfilava de peito aberto pelas ruas da cidade. Tratava-se de uma revanche bem humorada contra os conservadores, em sua maioria republicanos, que durante a última campanha eleitoral americana empunhavam cartazes em cada esquina no estado da Califórnia, apelando para que se votasse em favor da proposição que negava o direito ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, contrariando o que já havia sido recentemente aprovado pelo senado:
“Vamos banir a união entre homossexuais. O casamento e a família precisam ser protegidos”
Desta forma, além de escolher o novo presidente do país, quem foi as urnas naquele estado, também decidiu questões de interesse de certos setores da comunidade (não necessariamente interessantes) e não foi dessa vez que a união entre iguais emplacou.

Foi então que as minorias sexuais e simpatizantes resolveram dar o troco e distribuíram camisetas e adesivos nos carros com os dizeres:
“Vamos banir o casamento entre republicanos. O ódio é uma perversão”

Pelo jeito, os indianos e seus casamentos arranjados, a preservação das castas e o expurgo aos dalits não me parece coisa de outro mundo, como nos faz acreditar a tal da novela das oito. Se pelo menos aqueles que acham que podem decidir quem deve se casar com quem tivessem a gentileza de escolher noivos e noivas da categoria dos artistas da Rede Globo, todos sensuais, estonteantes e ricos...quem sabe eu vestiria a camisa da causa:
“Vamos banir o casamento por amor. Os níveis de audiência precisam ser estimulados”

24 de mar. de 2009

Mães Analógicas, Filhos Digitais


O filho estava afundado no sofá da sala de televisão sorrindo para algo que só ele podia ver no visor do celular, até porque, mesmo que quisesse, depois dos 40, a mãe já não identificava, desenhos que fossem, de uma distância tão curta. Há muito que, uma vez nos restaurantes, esperava alguém mais jovem fazer o pedido para que, em seguida, dissesse ao garçon fingindo naturalidade:


-Boa pedida! Traz o mesmo pra mim, só que bem passado -tudo para evitar ter que esticar os braços com o cardápio nas mãos, apertando os olhos no intuito de fixar o foco sobre as sugestões do chefe e jurar, mais uma vez, que os membros superiores estavam, definitivamente, encolhendo a olhos (quase) vistos.

Tentou então chamar a atenção do filho com o celébre e previsível ruído da coceira na garganta, mas não funcionou. Foi quando ela decidiu perguntar direta e ironicamente:

- Não me conhece mais?

O filho tirou rapidamente os olhos do celular e olhou pra ela com um leve ar de surpresa seguido de um sorrisinho bobo:

-Tá difeeeeeerente, mãezona!

-Diferente de que?-pergunta ela um tom acima do normal.

-Daquela foto.

-Foto? Que foto?

-Como que foto? – voltou a teclar no celular enquanto falava, o que a irritou profundamente. -A foto do seu perfil naquela página da net, a que você pediu preu mudar na semana passada.

Depois de alguns segundos, ela sussura:

-Photoshop.

-Heim?

A mãe suspira fundo e cria coragem:

-Pho-to-sho-pe, ouviu agora? Paguei uma nota pra aquele seu amigo retocar minha foto do perfil e dá nisso...você fala que estou irreconhecível.

-Eu não falei que cê estava irreconhecível, mãe, falei diferente.

-Ah, tá, diferente. Devo estar mesmo muito diferente ou você pelo menos me cumprimentaria ao chegar em casa. Tô desconfiada de que seu pai também pensa o mesmo, pois vive a olhar pros lados dizendo que está me procurando. Culpa do seu amigo que me deixou com a boca da Angelina Jolie.

O filho continuava a pressionar com agilidade desconcertante as teclas daquele celular e, quase simultaneamente, manuseava o controle da televisão para mudar os canais de cinco em cinco minutos, como bem reza o códico genético masculino.

-Foi você que pediu assim...

-Euuuu? Só falei que me deixasse 10 anos mais moça, atraente, mas não esquecesse que eu era uma engajada senhora, mãe de 6 filhos...

-Então...cê descreveu a Angelina, culpa sua.

-Culpa minha? Se pelo menos o Brad Pitt viesse junto com o pacote...

-Aí, mãe, o bro nao prometeu fazer milagre...- falou rindo, embora ela não estivesse certa se o motivo da manifestação de contentamento teria sido provocada pelo comentário dela ou pela mensagem virtual que acabara de receber.

É, seria mesmo um milagre se o marido resolvesse gastar trinta minutos diários caminhando na esteira pra ver como ele funcionava sem a barriguinha básica e tentasse, pelo menos, simular o jeito de andar do Brad. Não parecia muito, mas melhor que nada para ela que, fora a tal foto montada, exposta no site de relacionamentos e os 6 filhos, de Angelina não tinha nada.

-Pensei que faria economia ao trocar a lipoaspiração pela lipodigitação ...mas já vi que o mundo virtual não nos livra das mazelas de sempre...e, por falar nisso, vê se cai na real e vai dar um jeito no seu quarto, faz dias que nem arruma a cama.

-Cama?- perguntou distraído sem mover os olhos.

-Sim, cama, ou voce pensa que quem vive na rede não tem que arrumar a cama? Acha que o quarto é autolimpante? Que pode simplesmente reencaminhar suas obrigações? –queria parecer antenada com o vocabulário vigente, mas agradeceu intimamente o fato do filho não estar atento aos seus comentários toscos...felizmente ela não tinha aprendido ainda a enviar torpedos pelo celular, ou teria que suportar o constrangimento de ver seu discurso barato ser sumariamente de-le-ta-do.

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18 de mar. de 2009

Quem tem Roupa vai a Roma

Estava buscando um bom motivo pra voltar a escrever. Não que me faltasse assunto; do último post, em outubro, até hoje, muita coisa aconteceu dentro e fora de mim mesma e vontade não faltou para que eu traduzisse meus anseios em palavras... mas tenho experimentado ultimamente maneiras novas de me autosabotar e levei um certo tempo para descobrir onde escondia as armadilhas que me impedem de andar livremente pelos meus outdoors. Me restou ficar olhando pra dentro mais tempo que o necessário, pois quando isso ultrapassa a marca do segundo tempo, significa que a partida esta quase perdida contra mim mesma; acabo deixando que a autopiedade bata os penaltis e comemore com festa a vitória no embate.

Pois bem, foi nesse clima de não estou entendendo bem onde você quer chegar (se é que pensa em chegar a algum lugar) que ouvi a notícia na TV em que o jornal do Vaticano publicou por ocasião do Dia Internacional da Mulher, afirmando que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da espécie feminina no século XX do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho. Foi o suficiente para que saisse do estado letárgico em que me encontrava e parasse de sentir pena de mim mesma, afinal acabara de conquistar minha carta de alforria com a compra recente de uma máquina de lavar último modelo e, de sobra, uma secadora que fazia par perfeito com o tal instrumento de libertação e nem havia me dado conta disso; me encontrava injustificadamente presa às questoes sobre a minha condição, como uma fêmea insaciável no sentido mais sôfrego da palavra.

O título do artigo ainda me parecia mais intrigante: “A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe”. Bem sabe-se que Bento XVI nao entende nada de máquinas de lavar, pra nao falar de mulheres, ou saberia que relaxar não é o termo correto para quem, depois de fechar a bendita tampa, se desdobra em novas tarefas, sejam elas dentro ou fora de casa.

Pra quem fica em casa depois do baixar da tampa, restam as tarefas do tipo cama, mesa e banho, a comida da família (que agora tem que obedecer a um cardápio organicamente correto, oh céus!), os emails não respondidos há séculos (afinal dona de casa digital é imperativo nos dias de hoje), os cuidados com as crianças (que devem crescer saudáveis, educadas, cultas e , ainda por cima, felizes), as farpas dos adolescentes (estes sim insaciáveis no sentido mais aprazível da palavra!), as insinuações do marido (que quase sempre não quis dizer nada do que você achou que ele disse), as cobranças pessoais do tipo "não foi pra isso que eu estudei a vida inteira".

Para quem sai ao fechar a tampa, surgem todas as tarefas que ninguém mais aceitou fazer, mas você, como fez de tudo pra pegar a tal posição no trabalho, o faz esboçando um sorriso no rosto, as briguinhas esporádicas entre colegas de profissão para decidir quem puxa mais o saco do chefe, o salário que não corresponde ao seu esforço principalmente por ser você do sexo feminino, a certeza de que você está fazendo história por conseguir pagar uma máquina de lavar a prestação que lhe permite sair de casa e perseguir seus sonhos. Porém, relaxar que é bom, seu Bento, não tá incluido em nenhuma destas listinhas, não.

Talvez na época do tanque e do sabão em pedra encontravam-se melhores motivos para não se acumular outras funções: "Não posso agora, to lavando roupa!" Mas uma vez que por ora é so fechar a tampa e deixar que a tecnologia tome conta do resto, bate aquela culpa se você não conseguir, além de garantir roupas macias e cheirosas, arcar devidamente com todos os papéis que lhe são impostos, afinal tem ainda quem conte com a tal da secadora, o aspirador de pó, a máquina de lavar pratos, o liquidificador, o processador de alimentos, o microondas... nesse caso é melhor nem pensar em deitar em um divã, pois não tem Freud que explique tamanha ineficiência, melhor seria consultar um desses gurus da area empresarial, que deve saber direitinho porque você não consegue otimizar seu tempo frente ao advento das novas tecnologias.

Quanto à pílula anticoncepcional e o acesso ao mercado de trabalho citados no artigo e a comparação destes com a suposta liberação feminina promovida pela máquina de lavar, tenho que fazer algumas considerações.

A pílula nos permite, sim, buscar prazer sem comprometimento com a reprodução da espécie ou a perpetuação do marido, o que me parece uma inquestionável contribuição para nos sentirmos livres (menos pelo fato de ter que lembrar de tomá-la todos os dias sem esquecer nem umazinha que é pra nao virar prisão perpétua).

O acesso ao mercado de trabalho por sua vez permite que nos sintamos produtivas e poderosas, cunsumidoras, loiras e lindas se assim o desejarmos e/ou a produção de cosméticos e a industria da lipoaspiração permitir e ainda, caso o salário seja suficiente para que paguemos por isso. Sem dúvida, pelo menos da vida doméstica 24 horas estamos livres.

Mesmo tentando não ser injusta com minha máquina de lavar, só vou mudar de opinião acerca desse tema, quando inventarem um modelo que venha com um dispositivo novo, algo relacionado com uma dessas pilulazinhas do prazer que, ao fechar a tampa, nos remeta a outro universo onde nao tenhamos contato com marido, filhos, patrões ou autoridades do tipo e durante a media de 30 minutos que durar o ciclo da lavagem (com direito a 2 enxagues em casos extremos) possamos ficar realmente livres pra bater papo com as amigas, escolher o canal da televisão, rir de nos mesmas e dos desafetos, sonhar com um futuro melhor e com um penteado novo, e, de quebra, dar um passeio de tapete voador pelos centros culturais mais badalados do mundo (mesmo se for de vassoura, tá valendo). Isso, Vossa Eminência, eu chamaria de liberdade de fato e por que nao dizer, de direito. E deixa eu ir que a minha máquina de lavar, fabricada com um sensor especial, emite um apito estridente quando a roupa está finalmente lavada. Acorda, Alice!

10 de out. de 2008

I'm So Frida!


Soube que ela demorou a escolher o vestido em meio a todas as cores de seu guarda roupa. Vestiu pelo menos três, antes de bater a porta e sair de casa. Escolheu um pretinho clássico, com saia rodada e detalhes florais brancos discretos, contrastando com uma barra alaranjada de motivos indígenas que também aparecia na pala da blusa, de onde saltavam o amarelo vivo e o vermelho, que por sua vez se insinuavam sob um leve manto negro. Na cabeça flores, na pele cores. Brincos, anéis e colares, claro, ou não seria Frida.

Tinha planejado a viagem há algum tempo mas não estava sendo fácil se organizar em meio ao ócio; quem tem todo o tempo do mundo parece ter que justificar para si mesmo porque não consegue fazer o que deseja e/ou precisa entre o nascer e o por do sol. Mas há tempos ela havia cansado de dar satisfações sobre sua vida, é bem provável que tenha nascido assim; cabelinho na venta, como diria sua mãe.

Estava ansiosa, mas tentou disfarçar quando se viu em meio ao engarrafamento na entrada da cidade. Impossível que nao fosse chegar a tempo, havia comprado os ingressos com antecedência e feito planos para sair pelas ruas de São Francisco depois da exibição. Que mania essa gente tinha de correr para cidade grande nos finais de semana, todos na mesma hora, pensou, enquanto, parada, era atraída pela paisagem ao redor. Decidiu que talvez seria a hora de olhar um pouco através de outra janela que nao aquela que dava para sua própria imagem. Assim tinha sido durante sua vida inteira, olhar para espelhos e retratar a si mesma. Impossibilitada de andar desde aquele acidente terrível, não lhe restou outra alternativa durante um longo tempo a nao ser conversar com as imagens que fazia de si mesma enquanto aprendia a olhar para dentro. Frida pintava o que via no espelho, mas do lado do avesso. Agora estava ali, resistindo olhar pelo retrovisor para que pudesse perceber o que estava fora de seu alcance, no mundo exterior.

Antes mesmo que se desse por vencida, os carros começaram a se mover novamente e em poucos minutos ela estava em frente ao Museu de Arte, em busca de estacionamento. Faltavam 10 minutos para o início do evento. Pensou que se Dieguito ali estivesse, faria as honras da casa e a mandaria ir na frente para nao perder um minuto da exibição. Mas quem disse que ele não estava? Diego Riviera sempre esteve com ela, de uma forma tão passional que até mesmo a sua imagem no espelho o refletia.

Frida entrou quase correndo no salão principal do museu repleto de pessoas. Esperou em uma fila por mais algum tempo até que dessem sinal para que entrasse na sala. Foi então que a encontrei. Desde o momento em que nossos olhos se cruzaram no meio de toda aquela gente que parecia estar parada, como os carros na entrada da cidade, nos reconhecemos. Nos fitamos por um longo período e quase nos arrastamos, de tela em tela, sem nos perdermos de vista. Eu com os olhos nela, ela com os olhos em mim. Igualmente expostas, passeamos por nossos atalhos pessoais, nos encontramos em algumas esquinas e então estivemos a anos luz de distância em outras. Definitivamente, faltavam algumas cores na minha aquarela que ela tinha de sobra. Achei que, em seu lugar, não suportaria tanta dor e que, se assim fosse, não tornaria isso público mas, no caso de fazê-lo, não seria tão literal e...a neguei três mil vezes antes de concluir que nunca havia me sentido so Frida!

Impressoes pos-exposicao de Frida Kahlo no MOMA de Sao Francisco, em 27 de Setembro de 2008

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30 de ago. de 2008

Neologizando



Somos enrugáveis. Apesar dos cremes rejuvenescedores, do raio laser, do botox, da clínicas reparadoras, das vitaminas, das medidas preventivas, da medicina ortomolecular.

Somos irremediavelmente envelhecíveis. Apesar da ciência, dos produtos orgânicos, da lipoaspiração, do dinheiro, das esteiras ergométricas, da fama, da yoga, pilates e exercícios de meditação.

Encolhíveis, mancháveis, desidratáveis, debilitáveis, enfraquecíveis, morríveis, enterráveis.
E tão somente por isso, absolutamente memoráveis.
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17 de ago. de 2008

E por falar em saudade...


Parei de brigar com a saudade quando era ainda uma garota. Cheguei a pensar que depois disso seríamos amigas e viveríamos felizes para sempre, mas isso aconteceu na mesma época em que deixei de acreditar em contos de fadas e então não houve mais jeito. Fizemos portanto um pacto. Viveríamos uma relação de fachada e nos suportaríamos mutuamente em nome da moral e dos bons costumes, como se passa com qualquer príncipe e princesa depois da última página do livro. E, como não poderia deixar de ser, comecei a inventar uma porção de desculpas esfarrapadas para justificar a permanência dela em minha vida. Feliz daquele que sente saudade, pensava eu com uma certa desconfiança, sinal de que se viveu algo significativo que nos mobilzou e agora nos faz falta. Mas esta é apenas a mais clássica. Há uma série de frases feitas que, confesso, acabam ajudando a retomar o rítmo da vida quando a saudade nos coloca em um estado letárgico e nos faz acreditar que nunca mais seremos os mesmos. Mas aí eu tenho até que concordar com ela. Ninguém sai impune depois de lidar com o vazio, mesmo sabendo que se manifesta de maneiras diferentes. Há aqueles vazios temporários, que a gente sabe ou acredita que voltará a ser preenchido mais cedo ou mais tarde e há aqueles que são do tipo mais profundo, onde se está certo de que nada pode preenchê-lo, pelo menos não com o que conhecemos a princípio. Mas seja qual for o tipo de saudade que se venha a sentir, daquelas que passam rapidinho, as que duram para sempre ou, ainda, aquelas do pior tipo, quando a gente nem viveu ainda a perda, mas já antecipa a dor, cabe a você decidir como vai reagir ao tal sentimento que faz doer mais do que qualquer outro. Se a gente ocupar o vazio com os próprios sonhos, vai descobrir que, apesar das lembranças do que se viveu e da dor por isso não estar mais acessível, o melhor é parar de olhar pra dentro, pra profundidade do vazio, e buscar onde fica a montanha que se formou com o que foi retirado do buraco que surgiu na alma. Lá do topo, o mundo vai parecer muito mais fascinante. Posted by Picasa

29 de jul. de 2008

BOLETIM MÉDICO- a quem interessar possa

Nem só de paparazzi vivem as celebridades. Se no lugar de impacientes com os flashes e a falta de privacidade se tornarem pacientes e vulneráveis na cama de um hospital, um outro elemento se encarregará de deixar a opinião pública (leia-se curiosos) informados sobre seu estado: os boletins médicos. Aguardados ansiosamente, divulgados amplamente e comentados indiscriminadamente, se tornaram um procedimento a mais na rotina dos médicos. Em pouco tempo, os formandos do curso de medicina terão que completar a frase no juramento de Hipócrates: "Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto" ... tudo o mais eu deixarei minunciosamente registrado em um Boletim Médico, que será livremente repassado, interpretado, quando não deturpado, por aqueles a quem a informação possa interessar diretamente ou não.

Sparks, 29 de julho de 2008, 8:00 PM.

Paciente: Adriana Horta Fernandes

No vigésimo quarto dia, desde que soube ser portadora de uma disfunção de natureza física de caráter permanente, uma dislipedemia* de ordem genética, depois de uma crise de faniquito agudo, com direito a baixa em hospital e tudo, mantém, por ora, estado clínico geral estável.

Nas últimas horas, evoluiu com quadro de perda de peso, devidamente justificado pela dieta sem direito às coisas boas da vida, como massas, açúcar e gorduras ( calma, restam as fibras!). Além disso, a enfermidade está sendo tratada com doses sistemáticas de exercícios aeróbicos, minutos de meditação e controlados com o uso de medicamento.

A paciente permanece consciente, certa de que deverá seguir rigidamente as recomendações médicas, a fim de evitar, antes de mais nada, que os sobressaltos com as contas médico-hospitalares que já começaram a chegar (alguém falou em saúde pública? Não aqui, na terra de Tio Sam!), lhe roubem o que lhe resta de energia e da poupança para a compra da casa. A mesma se encontra no quarto(na sala, na cozinha, por onde anda) sob terapia medicamentosa e suporte nutricional.

*Dislipedemia: “alto colesterol e triglicérides no sangue que combinados a outros fatores de risco podem levar ao infarto, derrame cerebral, invalidez precoce e morte” ( poderia eu não apresentar sintomas da crise do pânico com uma definição dessas?)

"Dizziness" -Acrilico sobre tela- Roberto Lessa Junior-2007

16 de jun. de 2008

Testamento Aberto


DA DIVISÃO DOS BENS NÃO-MATERIAIS-ainda em vida

-Para Juliana de Boni Fernandes, minha sobrinha, deixo o meu jeito de sorrir e a maneira de revelar com os olhos que se está feliz. Além disso, herdará a forma de se relacionar com as pessoas que ama , embora sendo ela senhora de uma naturalidade ímpar que há muito tempo já perdi.

-Deixo também a mania de escrever cartinhas, de colecionar amigos, de puxar assunto, de fazer perguntas que não têm respostas, de distribuir abraços e beijos e rir de bobagens, de chorar de saudade, de expressar o que sente, de viajar na garupa de um cavalinho misterioso e cuidar de uma bonequinha preta.

-Finalmente, será dela, a partir de hoje e então para sempre, o desejo de que o mundo venha a ser mais justo, mais colorido, mais alegre, mais criativo, mais tolerante, mais a sua cara.

Assim seja.


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9 de jun. de 2008

São Francisco: 30 Imagens 100 Palavras






1. Charme 2. EsTiLo 3. Releitura






4.Signo 5. Símbolo 6. Sabor 7. Saudade






8.Vermelho 9. Trânsito 10.Deslize




11.Fantasia 12. Dia







13.Folego 14. Encanto








15.Preto 16. Dourado 17. Sinfonia




18.Marrom 19. Laranja 20. Azuis 21. Rosa









22.Sintonia 23. Fria




24.Velho 25. Fundos 26. Arte 27. Moderno





28.Espera.............................29.Melhor............. 30. Amigo




31.Ofício 32. Diversão 33. Mão 34. Contramão







35.Plástico 36. Lixo 37. Luxo 38. Plástica






39.Negro 40.Branco 41. Rubro 42. Batuque 43.Sombras


44.DiferentE 45. Iguais 46. Jornais

47. Busca 48. Viagem 49. Letras





50.Trilhos 51. Encontro 52. Passagem




53.Palco 54. Público 55. Preguiça







56. Aço 57. Sensação 58. Céu 59. Seu




60.Cartazes 61. Apelos 62. Opostos






63.Cores 64. Kahlo 65. Próxima ida 66. Frida




67.Transeuntes 68. Pressa 69. Arranha 70. Céus




71.FORMA 72. Luz

73. Esquina



74.São 75. Plural 76. Francisco 77. Singular


78. DiFerEnçAs


79. igualdade








80.Flores 81. Reflexo 82. 18 oxelfeR







83.Turquesa 84. Turquesas






85. Modo 86. de 87. USAr 88. Preservar







89.Aberto 90. Comércio 91. Escambo







92.Natureza 93. Cultura 94. Contracultura







95.Oferta 96. Calçada 97. Verniz









98. Irreverencia 99. Protesto 100. sem


World Naked Bike Ride-protesto contra a dependência do petroleo no mundo



Photos: Adriana Fernandes/ Marcus Resende

Caminhando por


São Francisco, CA Junho 7, 2008

Como dizem por aí:

“Anything goes in San Francisco.”

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